segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Éramos Seis (Maria José Dupré)

            De todos os títulos da nostálgica Coleção Vaga-lume, talvez seja esse um dos mais célebres, especialmente porque foi adaptado para telenovelas por quatro vezes, sendo a mais famosa aquela que foi ao ar pela emissora Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), em 1994.
            Nos anos iniciais do século XX, Dona Lola e o marido Sr. Júlio começavam a formar seu núcleo familiar com o nascimento do primeiro filho: Carlos. Haviam saído de Itapetininga e foram morar em São Paulo, levando na bagagem a esperança de melhorias com maiores oportunidades de emprego. Com o passar dos anos, outros três filhos vieram: Alfredo, Julinho e Isabel. Para garantir o sustento de toda a família e conseguir quitar as parcelas da casa nova, Júlio trabalhava em uma loja enquanto Lola atendia a encomendas de doces.
            A obra é inteiramente narrada em primeira pessoa pela protagonista, Dona Lola. Portanto, trata-se de um livro de memórias de um período de mais ou menos vinte anos de sua família. Eventos do cotidiano, amenidades, comemorações familiares e viagens são as memórias boas que ficaram marcadas no espírito de Lola. Contudo, a vida dera duros golpes logo nos primeiros anos da educação dos filhos, sendo os mais doloridos a morte de sua mãe em Itapetininga e a perda do marido, vítima de uma úlcera. Desde então, Lola passa a ser a imagem da mãe guerreira responsável pela criação dos quatro filhos, sendo ajudada principalmente por Tia Candoca e pela vizinha, Dona Genu.
            Após a morte de Júlio, a família passara por sérias dificuldades financeiras. Carlos e Alfredo começaram a trabalhar para ajudar a mãe, como também para que Julinho e Isabel pudessem continuar os estudos. Nessa labuta, a personalidade de cada um vai se exteriorizando: Carlos era o filho estudioso, obediente e dedicado inteiramente à família; Alfredo era rebelde, deixando empregos bons a contragosto da mãe e do irmão, além de envolver-se com grupos que nutriam ideiais comunistas; Julinho era dado aos negócios e tornar-se-ia o primeiro filho a sair de casa, indo morar no Rio de Janeiro por causa de uma boa oferta de emprego; Isabel recebia o maior investimento em termos de educação para que se tornasse professora. Dona Lola era uma mãe tradicional que aconselhava os filhos sobre o que pensava ser o melhor para eles, além de preocupar-se bastante com a imagem social de sua família. Tamanha dedicação, no entanto, não receberia o mesmo grau de correspondência de todos eles. E é justamente por causa dos diversos ideiais da juventude, somado às ciladas da vida, que vemos Dona Lola cada vez mais só, levando a compreender o acertado título dessa obra magnífica: Éramos Seis. Como uma mulher forte, ela representa todas as mães que veem sua família se acabar pouco a pouco, deixando-as solitárias e reféns das lembranças nostálgicas de um passado bom.
            Muito embora o sucesso obtido ao se popularizar com a telenovela, principalmente numa época em que as televisões tornavam-se um eletrodoméstico cada vez mais cobiçado e acessível aos brasileiros, a importância dessa obra resulta também no fato de que ela é uma imagem de grande parte das famílias dos anos 80, 90, com seus dramas e conquistas. Importante observar também que, em um país cujo analfabetismo era bastante alto, “assistir” a um livro era a maneira mais acessível de absorver o seu conteúdo. O fenômeno do êxodo rural ocasionara a migração de diversas famílias do campo para as cidades, em busca de melhores oportunidades. Com isso, tais núcleos familiares viviam nas cidades mas, vez ou outra, visitavam os parentes que ficaram no interior. A educação também era o grande trunfo para garantir o bom futuro dos jovens e, se formar um filho no colegial já era motivo de orgulho, quanto mais vê-lo obtendo um diploma de ensino superior, o que representava até mesmo um novo status social. Vemos ainda a questão dos bens materiais, de forma que um dos medidores do sucesso financeiro era conseguir comprar um veículo. Portanto, se confrontarmos essa história com os sonhos de muitos brasileiros que assistiam encantados a adaptação dessa obra fantástica, veremos a carga de esperança que ela despertava, fazendo com que se tornasse, mais do que um grande sucesso, um ideal a ser vivido.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:   Éramos Seis
Autoria: Maria José Dupré
Editora: Ática
Ano:      1987
Local:    São Paulo
Edição:  30ª
Série:    Coleção Vaga-lume
Gênero: Drama

Confira o 1º capítulo da novela lançada pelo SBT:


sexta-feira, 8 de setembro de 2017

O Imperador: a morte dos reis (Conn Iggulden)

Após a morte do cônsul Mário, a ação dos perseguidores obriga Júlio a fugir de Roma, deixando a esposa, Cornélia, grávida, ainda que ele não soubesse. Nessa fuga, é capturado por piratas. Porém esse revés acaba por revelar o líder que Júlio tornava-se cada vez mais e ele cumpre a promessa que fizera, de que crucificaria todos os piratas que o fizeram prisioneiro. Após essa vitória, Júlio parte rumo à Grécia para retomar o território ocupado pelo Rei Mitrídates.
Enquanto isso, em Roma, para defender a família e o legado de Júlio, Tubruk arriscara-se numa conspiração perigosa que culminou no assassinato de ninguém mais do que o vitorioso Sila. Roma estava abalada com o fatídico desfecho e os senadores viam nesse fato a oportunidade que esperavam para consolidarem seus planos traiçoeiros e mesquinhos. Em outro plano, o amigo de Júlio, Marco Brutus, fora designado para uma legião e tornara-se um ótimo soldado e líder. Ele tomara o partido da defesa da família de Júlio e, com isso, conseguira restabelecer a Primogênita, legião comandada pelo tio de Júlio, Mário. Por conseguinte, seu envolvimento com a política da cidade eterna também era cada vez maior.
Para espanto do Senado, contra todas as expectativas, Júlio consegue sair vitorioso e derrota o Rei Mitrídates. Após, retorna a Roma, onde colecionava diversos inimigos. Durante sua ausência, seus opositores, em especial o senador Cato, tentaram tirar a posse de diversas de suas terras, dando como certa sua morte, em virtude de seu sumiço. Júlio enfrenta a justiça e consegue brilhantemente provar o ardil que fora tramado contra ele. Consequentemente o ódio por sua pessoa crescia cada vez mais. No âmbito familiar, não obstante, Júlio era como um desconhecido. Cornélia criava sozinha a filha Júlia e ficara chateada quando Júlio ordenou que alguns soldados da Primogênita fizessem a segurança dela e da família. Mesmo tendo seu amor incompreendido pela esposa, Júlio nutria os mais sinceros afetos.
Pompeu e Crasso, antigos aliados de Mário e líderes no Senado viam em Júlio o comandante perfeito para uma nova missão. O Senado havia recebido a notícia de uma rebelião de gladiadores ao norte de Roma, liderada por um ex-legionário cujo nome era Espártaco e seu amigo Crixus. Desta forma, Júlio e Brutus são convocados para sufocar a rebelião e consolidar a supremacia do poder de Roma na civilização ocidental. O exército de escravos era numeroso e, embora formado por guerreiros amadores, vinha sendo muito bem treinado por Espártaco, causando pilhagens em diversas cidades e o terror dos moradores. No entanto, enquanto Júlio combatia os corajosos escravos, em Roma o senado, sob a liderança de Cato, armaria um golpe ainda mais duro contra ele, por meio de um atentado contra a vida de sua família, o bem mais precioso pelo qual Júlio ainda via sentido em defender Roma dos perigos.
Em relação ao primeiro volume da série - Os Portões de Roma -, neste o autor opta por uma narrativa mais focada nos fatos e menos enfeitada pela descrição dos cenários e costumes daquela época. Em relação ao paralelo entre a ficção e a realidade, uma nota história ao fim do livro esclarece o leitor sobre as poucas mudanças que o autor optou por fazer, essencialmente em relação ao parentesco de Júlio César.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:      Imperador, O
Subtítulo: a morte dos reis
Autoria:    Conn Iggulden
Editora:    Record
Ano:         2004
Local:       Rio de Janeiro
Série:       Imperador, O - Vol. II
Gênero:    História | Épico

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Os Mortos-vivos: sem saída (v. 14) (Robert Kirkman)

A morte de Regina deixara o psicológico de Douglas muito abalado. Cada vez mais o líder da comunidade se conscientizava do seu despreparo para lidar com tamanha catástrofe e liderar pessoas naquele universo hostil. O desconhecido Rick parecia-lhe alguém mais capaz de garantir a paz e segurança, valores cada vez mais significativos principalmente visando o bem dos idosos e crianças. Além do mais, o cotidiano não dava tempo para que os sobreviventes chorassem seus mortos, sendo que cada vez mais hordas de zumbis se acercavam da comunidade.
Outra questão evidente nessa edição são as carências emocionais dos personagens. Mesmo fragilizados pela perda de seus entes mais próximos, a maioria deles não se rende à necessidade de se relacionarem sexualmente com alguém, ainda que isso importe em uma consciência pesada. Afinal, o apocalipse zumbi era um episódio inédito, tanto que derrubava valores socialmente construídos e que já não se mantinham entre quem estava vivo. Os sobreviventes se adaptavam à nova realidade, ainda que seus velhos costumes e preceitos insistissem em ser preservados. Uma nova ordem de moral e ética estava gradativamente sendo constituída, à medida que os atores se adaptavam ao contexto.
Num incidente repentino a cerca se rompera e a comunidade fora invadida por uma manada de mortos. Morgan havia sido mordido e só não se tornou um errante graças à frieza de Michonne com sua espada, decepando o braço ferido do amigo. Contudo, sua recuperação mostrou-se insatisfatória, obrigando Michonne a suportar a perda de mais um de seus amores. Enquanto Rick busca desesperadamente uma solução rápida, Andrea e outros permanecem cercados em uma torre próxima. A solução encontrada por ele novamente era se lambuzar com as vísceras dos zumbis e sair no meio deles, camuflando-se. A princípio parecia que iria funcionar mas, a ansiedade temerosa do garoto Ron faz com que o jovem se torne mais uma vítima a ser devorada pelos famintos mortos-vivos, para desespero de sua mãe, Jessie. A mãe não suportara a perda do filho e também sofrera o mesmo destino trágico dele, por pouco não levando também o filho de Rick para o mesmo infortúnio. Pouco tempo antes, Rick confessara que se fosse necessário escolher entre seu filho Carl e o filho de outra pessoa, não pensaria duas vezes em proteger seu menino. O episódio da morte de Ron e Jessie ilustrara bem essa atitude. Contudo, o já abatido Douglas se lançara em meio aos zumbis para tentar ajudá-los a se salvarem. Com isso, tal atitude desesperada acabara por fazer com que Carl fosse atingido no olho direito por uma bala cuja mira fora pessimamente calculada.
Era o golpe mais doloroso que Rick sofrera desde que acordara no hospital e tomara conhecimento de todo aquele inferno. A morte de Lori já lhe impusera um peso insuportável. Perder seu filho Carl poderia significar o fim de todo o sentido que encontrava em manter a salvo a si mesmo e a seus amigos. O destino da vida de Carl e de parte da existência do próprio Rick estava agora nas mãos da Dra. Cloyd. Por outro lado, as hordas de zumbis se amotinavam cada vez mais, não restando outra alternativa aos duros guerreiros senão se lançarem em uma fúria radical para estraçalharem o maior número de errantes possível.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:      Walking Dead, The
Subtítulo: sem saída (v.14)
Autoria:    Robert Kirkman / Charlie Adlard
Editora:    HQM Editora
Ano:         2014
Local:       São Paulo
Série:       Mortos-vivos, Os - Volume XIV
Gênero:    Zumbi | Suspense | História em quadrinhos

Confira um trecho da série lançada pela AMC:


sábado, 19 de agosto de 2017

Fahrenheit 451 (Ray Douglas Bradbury)

Este livro segue a mesma linha de obras distópicas que retratam um modelo de sociedade perfeita, desde que seguidas algumas regras, mas que logo logo é exposta às suas fragilidades, provocando a ruína de seus pilares. Um dos melhores exemplos para que ilustremos essa comparação é o clássico, mundialmente famoso, Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley.
Guy Montag é um bombeiro que vivia em uma sociedade onde os livros eram a pior ameaça que o sistema deveria evitar. Ironicamente, nessa sociedade, a tarefa dos bombeiros, ao invés de apagar chamas era a de incendiar os livros, sem poupar nem mesmos as residências onde fossem encontrados, caso necessário. Desta forma, era-lhes atribuída a nobre tarefa de manter a ordem, principalmente impedindo que as ideologias encerradas em suas páginas se disseminassem. Somente assim era possível que todos vivessem no mínimo socialmente aceito, uma vez que as opiniões próprias constituíam conspirações à ordem estabelecida e o pensamento crítico deveria ser impetuosamente combatido.
O melhor exemplo de alienação ideológica está expresso na figura da esposa de Montag. Enquanto ele trabalhava para conseguir mais uma parede de TV para a amada, Mildred passava o dia inteiro entretida com seus “parentes televisivos”. Com isso, o autor visa tecer uma crítica direta ao poder de influência da programação televisiva na mídia, tornando as pessoas consumidoras de conteúdos irracionais e reféns de uma programação fútil em detrimento do desenvolvimento de seu próprio pensamento crítico.
Em dado momento de sua vida, Montag conhece uma garotinha vizinha cujo nome era Clarisse. De modo intrigante, Clarisse não temia em refletir o mundo que a cercava, de forma que tamanho senso crítico vinha despertando o interesse de Montag. O sumiço inesperado da menina e uma abordagem a uma residência em que a senhora moradora se recusara a abandonar sua casa, sendo queimada junto com seus livros, fora a gota d´água para que ele tomasse consciência de todo o servilismo que aquela sociedade criara e a barbaridade a que estava disposta para manter sua cegueira. Afinal, o que os livros tinham que os faziam serem evitados e até mesmo destruídos? Ao tomar nas mãos um exemplar e ler algumas linhas, Montag não entende bem a mensagem, mas o episódio lhe soa como uma abertura para um mundo de luz e esclarecimento, nunca antes experimentado.
A partir daquele episódio, Montag passou por momentos difíceis de intensa confusão, despertando a atenção de seu chefe, o Capitão Beatty. Em um discurso político-ideológico, Beatty tenta convencer Montag sobre a singeleza da missão que tinham, fazendo entender que, em algum momento de sua vida profissional, todos os bombeiros estariam sujeitos àquela crise passageira. No entanto, Montag tinha agora outro propósito de vida: descobrir e preservar na memória o conteúdo daquelas páginas que poderiam transformar definitivamente o mundo. Como sozinho tal tarefa seria limitada e impossível, ele conta com o apoio do professor Faber. Inclusive, é o próprio Faber que o convence sobre a necessidade de racionalizar a vida e exercer a autocrítica diante de sistemas de censura como aquele.
A história contada por Ray Bradbury é extremamente atual, servindo perfeitamente como uma crítica da sociedade pós-moderna, principalmente à cultura midiática e tecnológica do século XXI. Não obstante tenha sido escrita em 1953, curiosamente o autor consegue retratar o mundo que começou a existir na década de 90. Uma das personagens mais intrigantes é o Capitão Beatty. No discurso que tem com Montag, Beatty demonstra a densidade de seu conhecimento literário e de sua capacidade em ler o contexto social. No entanto, na prática, Beatty adota uma postura irracional, preferindo viver na ignorância e apregoando a necessidade de que as pessoas se deixem levar por coisas simples e imediatas como “apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas”. Para ele, o que vale é o imediatismo e a satisfação instantânea das necessidades humanas. Dessa forma, a revolta de Montag frente ao sistema é o fruto de seu próprio despertar do temor daquilo que as pessoas desconheciam e evitavam, não porque era perigoso e sim porque foram coagidas a evitar, para que não viessem a questionar o destino que tinham traçado para elas.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:     Fahrenheit 451
Subtítulo:a temperatura na qual o papel do livro pega fogo e queima
Autoria:   Ray Douglas Bradbury
Editora:   Globo
Ano:        2003
Local:      São Paulo
Gênero:   Drama | Distopia 

Confira o trailer da adaptação para o cinema lançada em 1966:


quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Indenização em Dobro (James Mallahan)

Essa é uma aventura do mundo dos negócios. Mais do que uma trama envolvendo a busca ambiciosa por lucros e resultados, trata do perigo em deixar-se levar pelas paixões obstinadas, levando a atitudes impensadas. Uma obra completamente atual, levando-se em conta as leis de mercado que regem o capital e os valores sociais que o capitalismo semeou e já vem colhendo.
Walter Huff é um corretor experiente de uma companhia de seguros que, na sua atividade corriqueira, visita um cliente visando a renovação do seguro do automóvel. Trata-se de H. S. Nirdlinger, funcionário da Western Pipe & Supply e pioneiro da indústria petrolífera em Los Angeles. Como o cliente estava ausente, Walter é atendido por sua esposa, Phyllis Nirdlinger, e uma indagação o deixa bastante inquieto: a mulher queria saber se o seguro cobria acidentes pessoais e morte. Extrapolando suas atividades, Walter acaba se envolvendo emocionalmente com Phyllis e os dois começam a arquitetar um plano para que o marido dela morresse e ela pudesse receber uma farta indenização. Perito de seu trabalho, Walter forjaria um plano para que o Sr. Nirdlinger morresse em virtude de um acidente de trem. Tais fatalidades eram pouco comuns, o que fazia com que as indenizações de apólices de seguro para esses casos possuíssem o valor dobrado. Era um estratagema perfeito para que a viúva recebesse uma boa quantia e Walter fosse recompensado com um romance desejado e com estabilidade financeira. E assim o fatídico plano é consumado da melhor forma possível, de maneira a evitar rastros...
Lola é filha do casal Nirdlinger e namorava Beniamino Sachetti. À medida que as investigações avançavam, Norton e Keyes, funcionários da mesma corretora de Walter mostravam-se cada vez mais resistentes em pagar o seguro e insistiam na hipótese de que o cliente cometera suicídio. Com isso, a corretora queria forçar Phyllis a abrir um processo judicial para que pudesse receber a indenização. Walter acompanha todos os pormenores do caso e logo vê as suspeitas desviarem para a hipótese de assassinato e recaírem sobre o namorado de Lola, que sem motivos aparentes havia terminado com ela e vinha flertando com a Sra. Nirdlinger. Entretanto, descobertas sobre o passado de Phyllis demonstrariam o quão perigosa era aquela mulher. Walter estava consciente da enrascada em que se metera e somente Lola poderia ajudá-lo a se salvar.
Walter Huff é a imagem do homem que, levado por suas paixões, está disposto a tudo para consumá-las, ainda que sua carreira íntegra seja colocada em jogo. Seu modus operandi o revela uma pessoa extremamente calculista, focada nos detalhes e nas impressões que esses poderiam deixar, preocupado em não deixar rastros ou sinais que o pudessem incriminar. Durante a trama ele não demonstra remorso do crime que cometera. Contudo, em determinado momento, conscientiza-se do risco a que se submetera e da ameaça que Phyllis representava para si. A partir de então, sua paixão se direciona para a Lola, como se ela fosse capaz de redimi-lo do fosso que cavara para si mesmo. Ele encerra a dualidade do sucesso/fracasso sendo o perfeito exemplo de que uma carreira sólida pode rapidamente se desintegrar se as emoções quiserem se beneficiar dos ditames da profissão.
Indenização em Dobro é um livro envolvente pois faz com que o leitor se torne ávido por saber o resultado que tamanho problema irá ocasionar. Alguns verão Walter Huff como vítima, outros o verão como um criminoso litisconsorte. A obra ganhou uma adaptação cinematografia em 1944, num filme chamado Pacto de Sangue, em português.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:    Indenização em Dobro
Autoria:  James Mallahan
Editora:  Companhia das Letras
Ano:       2007
Local:     São Paulo
Gênero:  Suspense | Drama

Confira o trailer da adaptação para o cinema lançada em 1944:


domingo, 30 de julho de 2017

Minas do Ouro (Frei Betto)

Autor famoso por retratar trechos emblemáticos da história brasileira em seus romances, especialmente o período da ditadura, desta vez Frei Betto destaca o período áureo da mineração. Esse é o segundo romance dele no gênero de ficção histórica, sendo precedido apenas por Um Homem chamado Jesus.
Inicialmente, totalmente dentro do contexto, o título da obra faz referência à Capitania de São Paulo e Minas do Ouro, uma das capitanias surgidas após a Guerra dos Emboabas, no ano de 1709. Contudo, a história aqui narrada remonta a um período bem mais precoce, de forma que o autor percorre por cerca de quinhentos anos da história brasileira, especialmente aqueles em que o ciclo do ouro constituiu-se na maior riqueza da nação, atraindo a cobiça dos mercados estrangeiros.
O foco da narrativa é um misterioso mapa que estava sob o poder da família Arienim. A partir dele, o leitor percorrerá pelas várias gerações dessa família, desde as primeiras bandeiras que desbravaram o interior do país em busca do ouro até a chegada de uma empresa mineradora de sucesso às minas de Morro Velho. Logo, embora outras regiões brasileiras contribuam para melhor compor o espaço na qual o enredo se constrói, o foco é o estado de Minas Gerais, especialmente as terras de cidades que mais tarde viriam a se tornar no que hoje conhecemos como Ouro Preto, Mariana, São João Del Rey, Sabará, etc..
A história da saga da família Arienim na busca pela realização da promessa dourada daquele mapa é narrada em terceira pessoa, através de apontamentos, sendo que cada um dá ênfase a um membro desta família aguerrida. Tudo começa no Vale do Tripuí, região do que mais tarde viria a se tornar o município mineiro de Mariana, onde as primeiras esperanças de encontrar ouro se realizaram: o ouro preto. Para a sociedade daquele tempo, os primeiros lampejos do metal justificavam o abandono de suas principais atividades laborais a fim de que se dedicassem integralmente à procura do metal que transformaria definitivamente suas sofridas vidas: “Logo a notícia do ouro do Tripuí ganhou asas, correu vozes, suscitou delírios. (...) A lavoura perdeu braços; a defesa, militares; as embarcações, tripulantes. Padres trocavam a batina pela bateia. (...) Todo cavalgavam na fantasia de desentranhar da terra o metal que produziria a alquimia de suas vidas.”
Frei Betto usa um linguajar bastante típico e brinda o leitor com uma verdadeira imersão na cultura mineira. A conexão da estória da família Arienim na história de Minas Gerais ocorre de forma perfeita, percorrendo episódios elementares que ressaltam a importância do estado mineiro no contexto brasileiro: as bandeiras, a exploração do ouro, os cultos religiosos (especialmente o Triunfo Eucarístico), a Inconfidência Mineira (o apontamento dedicado a Tiradentes é épico), a obra de Antônio Francisco Lisboa (o Aleijadinho), finalizando no desfecho em que o último Arienim finalmente descobre a ligação entre o fragmento de mapa que sua família tanto cultuava e o anel de diamante que ninguém menos do que Elizabeth Taylor portava durante um evento.
Ciente do desafio de que os romances históricos acabam por inevitavelmente retratar o ponto de vista histórico de seus autores, Frei Betto constrói uma paródia da história oficialmente consagrada. Trata-se de uma leitura própria dos fatos e acontecimentos, a partir da vivência e do contexto de seus personagens fictícios, algumas vezes sendo fiel à cronologia dos acontecidos, outras vezes fazendo uma releitura fantástica para narrar determinado fato com tons de sensacionalismo. Portanto, há quem diga que Minas do Ouro seja mais uma metaficção historiográfica do que um típico romance histórico, uma vez que conta uma visão alternativa, sob a perspectiva daqueles que não eram personagens cujos nomes foram consagrados pelos história convencional. Na dedicatória da obra, o autor homenageia os 300 anos de fundação de Ouro Preto, Mariana e Sabará. Porém, a escrita dessa obra homenageia os mineiros e principalmente aqueles que derramaram sangue e suor na busca do metal precioso que fez com que o Brasil conquistasse ainda mais o olhar de Portugal e do mundo, ainda que com interesses meramente exploratórios.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:   Minas do Ouro
Autoria: Frei Betto
Editora: Rocco
Ano:      2011
Local:    Rio de Janeiro
Gênero: História | Épico

quinta-feira, 20 de julho de 2017

47 Ronins (John Allyn)

            Exaltando a tradição da cultura japonesa, John Allyn busca recontar em formato de prosa a incrível história que, para muitos, trata-se apenas de uma lenda. A edição traz em sua capa um cartaz do filme estrelado por Keanu Reeves e lançado em 2014, muito embora haja significativas diferenças entre a mídia literária e a mídia cinematográfica.
            No Japão feudal do século XVIII, mais precisamente por volta do ano 1701, a província de Ako vivia sob o comando do respeitado mestre samurai Lorde Asano Naganori. O país vivia submetido à Lei de Preservação da Vida, decretada pelo Xógun – líder supremo de todo o Japão, em que todo o ser vivente, seja humano ou animal, deveria ter preservado seu sagrado direito à vida e à incolumidade de sua existência. Incitado pelo alto funcionário do xógun, Kira Yoshihisa, Lorde Asano comete-lhe uma agressão tida como imperdoável naquela sociedade fortemente marcada pela disciplina e obediência. Consequentemente, o daimio é condenado a praticar o seppuku, ou seja, ferir-se fatalmente, como sinal de honra e expiação. Com sua morte, quarenta e sete guerreiros são rebaixados à condição de ronins, o que significava que agora eram samurais sem mestre. Em uma sociedade cuja referência das lideranças era extremamente importante, ser um ronin era o mesmo que pertencer a uma categoria desprezada na pirâmide social.
            A lealdade e honra à memória do falecido mestre não deixariam que aqueles ex-samurais aceitassem passivamente a condição que um golpe injusto do destino lhes submetera. Com isso, liderados por Oishi, vingar seu antigo mestre tornar-se-ia o propósito de vida que permitiria àqueles ronins serem coerentes com a memória de seus ensinamentos. Nesse contexto, desvela-se o que seria o maior destaque da cultura japonesa a que o autor se propõe ao recontar a história dos ronins: o código de honra samurai (bushidô), no qual valores como a justiça, lealdade, verdade e fidelidade aos princípios constituir-se-iam no principal meio de um ronin alcançar algum orgulho em suas atitudes. Destaca-se pois a grande mensagem que a lenda e a obra buscam transmitir, segundo a qual a fidelidade aos princípios deve ser algo religiosamente protegido, ainda que isso signifique perder a própria vida.
            A narrativa de John Allyn, embora bastante informativa, por vezes se perde na extensão reflexiva sobre as intenções de seus personagens. Mesmo assim, a leitura flui com bastante rapidez tornando o livro uma obra agradável e interessante. Existem diversos personagens secundários que demonstram a importância dos laços familiares para o personagem principal. Talvez uma crítica negativa seja na apresentação gráfica que a edição trouxe em sua capa e contracapa ao exibir um pôster do filme. O leitor que se dedicar a buscar saber qual dos personagens do livro seria aquele estrelado por Keanu Reeves pode se decepcionar. O filme, cuja fantasia alimenta ainda mais a crença de que a história dos ronins não passa de uma lenda, serve muito mais aos anseios mercadológicos da indústria do cinema do que à exibição de um recorte da rica história japonesa. Dessa forma, a obra de John Allyn e a produção cinematográfica são duas coisas distintas e independentes entre si, fazendo com que a referência que o livro faz ao filme sirva puramente a uma jogada de marqueting. Enfim, a lenda dos 47 Ronins exalta a inconformidade diante das condições que a vida impõe, fazendo com que a honra seja buscada dentro de si mesmo e não frente àquilo que a sociedade considera como memorável.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:      47 Ronins, Os
Subtítulo: a clássica história de lealdade, coragem e vingança
Autoria:    John Allyn
Editora:    Novo Século Editora
Ano:         2013
Local:       Barueri
Gênero:    Drama

Confira o trailer do filme lançado pela Universal Pictures em 2014:


segunda-feira, 10 de julho de 2017

Eu, Alex Cross (James Patterson)

Alex Cross é um dos personagens que rendeu ao seu ator milhares de livros vendidos pelo mundo todo e as primeiras posições no ranking de mais vendidos dos Estados Unidos. Este livro é parte integrante de uma série que, assim como Private e O Clube das Mulheres contra o Crime fazem com que James Patterson seja um dos mais respeitados autores de romance policial de todos os tempos. Seria ele um substituto à altura dos já aclamados Arthur Conan Doyle e Agatha Christie?
Alex Cross estava comemorando seu aniversário quando recebe uma notícia avassaladora: sua sobrinha, Caroline Cross, fora assassinada de uma forma bárbara e seu corpo fora fragmentado em um triturador de madeira. Mesmo abatido, Alex tomaria o caso para si e receberia o auxílio do amigo detetive Ned Mahoney. Não bastasse o impacto dessa notícia, Alex ainda lidava com outro episódio familiar para aguçar ainda mais sua crise: sua avó, Nana, estava seriamente doente e, por mais que o trabalho requeresse integral dedicação do detetive, ele não abriria mão de cuidar daquela pessoa amada que para ele significava uma parte de si mesmo.
As investigações levam os detetives à descoberta de que Caroline estava envolvida com uma casa de prostituição luxuosa. Blacksmith Farms era um clube privativo para figurões, localizado na Virgínia. A suspeita da ligação do crime com o clube estava no fato de que ela não fora a única vítima a perder a vida no local. Um homem de codinome Zeus era o maior suspeito, mas não havia qualquer pista sobre sua verdadeira identidade e a motivação dos crimes. Por outro lado, o serviço secreto da Casa Branca, sob a supervisão de Dan Cormorant, também se envolvera com o caso. A própria presidente dos Estados Unidos, através do chefe de gabinete, Gabriel Reese, fizera de tudo para que o caso saísse do Departamento de Polícia e passasse para a tutela do FBI, porém as circunstâncias não justificavam tamanha precaução.
Alex Cross chegara a interrogar um funcionário de uma rede televisiva e suspeitava também do senador Marshall Yarrow. Por outro lado, Dan Cormorant, acreditava cada vez mais que Zeus pudesse ser ninguém menos do que Remy Williams, ex-agente do Serviço Secreto. Em meio a esse ínterim, a certeza de que membros do governo pudessem estar ligados aos crimes crescia e as ações do detetive Cross teriam que ser cuidadosamente planejadas. Não somente sua carreira poderia estar em jogo, mas também a integridade de sua família estava em risco, já que sua residência parecia estar sob constante vigilância. No entanto, a preocupação com a saúde debilitada de sua avó talvez seja o fator que mais abalasse o psicológico de Alex. Cada telefonema era atendido com a apreensão de quem não está preparado, mas sabe que uma notícia ruim poderia chegar a qualquer momento.
O estilo narrativo de Patterson é bastante leve, delimitado por capítulos curtos cujos acontecimentos são bem divididos. Contudo, há uma gama de personagens e fatos que exigem bastante atenção, principalmente porque a conspiração é a alma de um bom romance policial. A conciliação do drama familiar vivido por Alex Cross e a maestria no desempenho de seu trabalho demonstra um lado mais humano e o emocional frágil do protagonista da série. Interessante observar que os oponentes de Cross não exploram tal fragilidade, demostrando que o detetive não costuma misturar sua vida pessoal com a profissional. Por outro lado, podemos perguntar se o assassinato da sobrinha de Cross não tinha como objetivo atingi-lo em cheio, ainda que ela não tivesse contato com Caroline há anos. Qual seria a real intenção dos autores do crime?
James Patterson pecou na finalização simplória de outro de seus romances bombásticos: Zoo. Neste, talvez o alto cargo ocupado pelos envolvidos no esquema do assassinato e a gravidade de sua ligação com os membros da Casa Branca fosse o melhor que ele conseguiu para tornar a história impactante e surpreendente. Tamanha expectativa criada durante a narrativa culminam em um Zeus apagado durante toda a trama, de que não se tem muitas informações, mas que, na verdade, é o “cara” do romance. A trama é boa, mas nada que faça ser pomposamente aplaudida de pé...

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:   Eu, Alex Cross
Autoria: James Patterson
Editora: Arqueiro
Ano:      2011
Local:    São Paulo
Série:    Alex Cross
Gênero: Drama | Policial | Suspense

sexta-feira, 30 de junho de 2017

The Walking Dead: a queda do Governador - Parte Um (Robert Kirkman / Jay Bonansinga)



Embora um recinto aconchegante se considerado o caos que o mundo vivia, Woodbury era também um reino de selvageria comandado por um líder perverso e desvirtuado. Haja vista as lutas que promovia na arena, como forma de divertir os moradores e iludi-los do caos, com duelos em meio a zumbis decompostos e famintos. A personalidade atroz de Philip não era conhecida por todos, o que lhe garantia certo prestígio e mérito por ser visto como um defensor heroico. Nesse contexto, vivia Lilly Caul, ainda atormentada pelos acontecimentos do último episódio (O caminho para Woodbury) e também deprimida pela dor não resolvida provocada pela morte dos amigos e do namorado. Somente a presença amiga de Austin, soava como um alívio para o clima depressivo que vivia.
Woodbury era uma “ilha” rodeada pelos temíveis mortos-vivos, de forma que, dentro de seus limites, todos estavam seguros. A imagem benéfica de Philip era a bandeira de sua campanha entre os habitantes. Seu lado perverso era conhecido somente pelos seus capangas, pelo Dr. Stevens e sua auxiliar, Alice. A ditadura de seus atos era algo jamais visto na história da humanidade, de forma que àqueles que presenciavam suas atrocidades restava o silêncio, caso não quisessem se juntar à horda de zumbis que assolava o mundo externo.
     Esse terceiro volume da série satisfaz o apetite de muitos fãs da franquia The Walking Dead, quando promove a interligação das três mídias: as histórias em quadrinhos, o seriado televisivo e os livros. Durante a narrativa, um trio chega a Woodbury. São Michonne, Rick e Gleen, que foram capturados por Martinez e levados ao Governador como ameaça em potencial. O que acontece é um show de atrocidades da mais cruel categoria: Rick tem a mão direita decepada pelo Governador; Michonne é abusada e espancada covardemente; Gleen é mantido em cárcere e torturado como uma isca para que os capangas descubram a verdade sobre alguns rumores a respeito de certa prisão nos arredores. Na verdade, o trio vinha de um refúgio muito mais seguro e Philip desejava, a qualquer custo, apoderar-se do local. O conflito de interesses colocaria à prova o poder de comando do Governador e a segurança do grupo de Rick. A pequena sociedade de Woodbury chegava a um ponto onde ninguém era digno de confiança, principalmente aqueles que garantiam a segurança e manutenção da ordem no local.
     Um aspecto interessante que se pode destacar é a percepção construída a partir de três visões diferentes: a do povo de Woodbury, que via na pessoa do Governador a figura de um líder emergente, capaz de garantir-lhes um mínimo da dignidade que perderam com o início da praga; Lily Caul e Austin, cujo clima de romance, dava-lhes esperança de que dias melhores viriam; Rick, Michonne e Gleen, que tinham consciência de ter encontrado uma ameaça ainda mais temível do que a própria horda de zumbis.
    Dos três primeiros livros lançados, talvez esse seja o mais digno de representar o universo de The Walking Dead: muitos zumbis, inúmeros detalhes sórdidos e nojentos, ataques inesperados de humanos e mortos-vivos, um clima de tensão, medo e suspense sempre presente, desafiando o leitor a parar de ler, se for capaz. Embora introduza a figura dos protagonistas do seriado lançado pela AMC, a figura central de toda a narrativa continua sendo o Governador com sua personalidade dúbia e perversa. Dessa forma, a tônica da narrativa possui um escopo muito mais político do que ligado à sobrevivência e destruição dos mortos-vivos. É também uma leitura obrigatória para os fãs da série, já que fornece detalhes e histórias que as outras mídias não aprofundam o suficiente (por exemplo, Lily Caul, que nas histórias em quadrinhos tem um papel importante na “queda do Governador”).

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:       Walking Dead, The
Subtítulo:  a queda do Governador - Parte Um
Autoria:     Robert Kirkman / Jay Bonansinga
Editora:     Galera Record
Ano:          2014
Local:        São Paulo
Edição:      6ª
Série:        The Walking Dead - Livro III
Gênero:     Zumbi | Suspense

Confira o trailer da série lançada em 2010: