quinta-feira, 20 de julho de 2017

47 Ronins (John Allyn)

            Exaltando a tradição da cultura japonesa, John Allyn busca recontar em formato de prosa a incrível história que, para muitos, trata-se apenas de uma lenda. A edição traz em sua capa um cartaz do filme estrelado por Keanu Reeves e lançado em 2014, muito embora haja significativas diferenças entre a mídia literária e a mídia cinematográfica.
            No Japão feudal do século XVIII, mais precisamente por volta do ano 1701, a província de Ako vivia sob o comando do respeitado mestre samurai Lorde Asano Naganori. O país vivia submetido à Lei de Preservação da Vida, decretada pelo Xógun – líder supremo de todo o Japão, em que todo o ser vivente, seja humano ou animal, deveria ter preservado seu sagrado direito à vida e à incolumidade de sua existência. Incitado pelo alto funcionário do xógun, Kira Yoshihisa, Lorde Asano comete-lhe uma agressão tida como imperdoável naquela sociedade fortemente marcada pela disciplina e obediência. Consequentemente, o daimio é condenado a praticar o seppuku, ou seja, ferir-se fatalmente, como sinal de honra e expiação. Com sua morte, quarenta e sete guerreiros são rebaixados à condição de ronins, o que significava que agora eram samurais sem mestre. Em uma sociedade cuja referência das lideranças era extremamente importante, ser um ronin era o mesmo que pertencer a uma categoria desprezada na pirâmide social.
            A lealdade e honra à memória do falecido mestre não deixariam que aqueles ex-samurais aceitassem passivamente a condição que um golpe injusto do destino lhes submetera. Com isso, liderados por Oishi, vingar seu antigo mestre tornar-se-ia o propósito de vida que permitiria àqueles ronins serem coerentes com a memória de seus ensinamentos. Nesse contexto, desvela-se o que seria o maior destaque da cultura japonesa a que o autor se propõe ao recontar a história dos ronins: o código de honra samurai (bushidô), no qual valores como a justiça, lealdade, verdade e fidelidade aos princípios constituir-se-iam no principal meio de um ronin alcançar algum orgulho em suas atitudes. Destaca-se pois a grande mensagem que a lenda e a obra buscam transmitir, segundo a qual a fidelidade aos princípios deve ser algo religiosamente protegido, ainda que isso signifique perder a própria vida.
            A narrativa de John Allyn, embora bastante informativa, por vezes se perde na extensão reflexiva sobre as intenções de seus personagens. Mesmo assim, a leitura flui com bastante rapidez tornando o livro uma obra agradável e interessante. Existem diversos personagens secundários que demonstram a importância dos laços familiares para o personagem principal. Talvez uma crítica negativa seja na apresentação gráfica que a edição trouxe em sua capa e contracapa ao exibir um pôster do filme. O leitor que se dedicar a buscar saber qual dos personagens do livro seria aquele estrelado por Keanu Reeves pode se decepcionar. O filme, cuja fantasia alimenta ainda mais a crença de que a história dos ronins não passa de uma lenda, serve muito mais aos anseios mercadológicos da indústria do cinema do que à exibição de um recorte da rica história japonesa. Dessa forma, a obra de John Allyn e a produção cinematográfica são duas coisas distintas e independentes entre si, fazendo com que a referência que o livro faz ao filme sirva puramente a uma jogada de marqueting. Enfim, a lenda dos 47 Ronins exalta a inconformidade diante das condições que a vida impõe, fazendo com que a honra seja buscada dentro de si mesmo e não frente àquilo que a sociedade considera como memorável.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:      47 Ronins, Os
Subtítulo: a clássica história de lealdade, coragem e vingança
Autoria:    John Allyn
Editora:    Novo Século Editora
Ano:         2013
Local:       Barueri
Gênero:    Drama

Confira o trailer do filme lançado pela Universal Pictures em 2014:


segunda-feira, 10 de julho de 2017

Eu, Alex Cross (James Patterson)

Alex Cross é um dos personagens que rendeu ao seu ator milhares de livros vendidos pelo mundo todo e as primeiras posições no ranking de mais vendidos dos Estados Unidos. Este livro é parte integrante de uma série que, assim como Private e O Clube das Mulheres contra o Crime fazem com que James Patterson seja um dos mais respeitados autores de romance policial de todos os tempos. Seria ele um substituto à altura dos já aclamados Arthur Conan Doyle e Agatha Christie?
Alex Cross estava comemorando seu aniversário quando recebe uma notícia avassaladora: sua sobrinha, Caroline Cross, fora assassinada de uma forma bárbara e seu corpo fora fragmentado em um triturador de madeira. Mesmo abatido, Alex tomaria o caso para si e receberia o auxílio do amigo detetive Ned Mahoney. Não bastasse o impacto dessa notícia, Alex ainda lidava com outro episódio familiar para aguçar ainda mais sua crise: sua avó, Nana, estava seriamente doente e, por mais que o trabalho requeresse integral dedicação do detetive, ele não abriria mão de cuidar daquela pessoa amada que para ele significava uma parte de si mesmo.
As investigações levam os detetives à descoberta de que Caroline estava envolvida com uma casa de prostituição luxuosa. Blacksmith Farms era um clube privativo para figurões, localizado na Virgínia. A suspeita da ligação do crime com o clube estava no fato de que ela não fora a única vítima a perder a vida no local. Um homem de codinome Zeus era o maior suspeito, mas não havia qualquer pista sobre sua verdadeira identidade e a motivação dos crimes. Por outro lado, o serviço secreto da Casa Branca, sob a supervisão de Dan Cormorant, também se envolvera com o caso. A própria presidente dos Estados Unidos, através do chefe de gabinete, Gabriel Reese, fizera de tudo para que o caso saísse do Departamento de Polícia e passasse para a tutela do FBI, porém as circunstâncias não justificavam tamanha precaução.
Alex Cross chegara a interrogar um funcionário de uma rede televisiva e suspeitava também do senador Marshall Yarrow. Por outro lado, Dan Cormorant, acreditava cada vez mais que Zeus pudesse ser ninguém menos do que Remy Williams, ex-agente do Serviço Secreto. Em meio a esse ínterim, a certeza de que membros do governo pudessem estar ligados aos crimes crescia e as ações do detetive Cross teriam que ser cuidadosamente planejadas. Não somente sua carreira poderia estar em jogo, mas também a integridade de sua família estava em risco, já que sua residência parecia estar sob constante vigilância. No entanto, a preocupação com a saúde debilitada de sua avó talvez seja o fator que mais abalasse o psicológico de Alex. Cada telefonema era atendido com a apreensão de quem não está preparado, mas sabe que uma notícia ruim poderia chegar a qualquer momento.
O estilo narrativo de Patterson é bastante leve, delimitado por capítulos curtos cujos acontecimentos são bem divididos. Contudo, há uma gama de personagens e fatos que exigem bastante atenção, principalmente porque a conspiração é a alma de um bom romance policial. A conciliação do drama familiar vivido por Alex Cross e a maestria no desempenho de seu trabalho demonstra um lado mais humano e o emocional frágil do protagonista da série. Interessante observar que os oponentes de Cross não exploram tal fragilidade, demostrando que o detetive não costuma misturar sua vida pessoal com a profissional. Por outro lado, podemos perguntar se o assassinato da sobrinha de Cross não tinha como objetivo atingi-lo em cheio, ainda que ela não tivesse contato com Caroline há anos. Qual seria a real intenção dos autores do crime?
James Patterson pecou na finalização simplória de outro de seus romances bombásticos: Zoo. Neste, talvez o alto cargo ocupado pelos envolvidos no esquema do assassinato e a gravidade de sua ligação com os membros da Casa Branca fosse o melhor que ele conseguiu para tornar a história impactante e surpreendente. Tamanha expectativa criada durante a narrativa culminam em um Zeus apagado durante toda a trama, de que não se tem muitas informações, mas que, na verdade, é o “cara” do romance. A trama é boa, mas nada que faça ser pomposamente aplaudida de pé...

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:   Eu, Alex Cross
Autoria: James Patterson
Editora: Arqueiro
Ano:      2011
Local:    São Paulo
Série:    Alex Cross
Gênero: Drama | Policial | Suspense

sexta-feira, 30 de junho de 2017

The Walking Dead: a queda do Governador - Parte Um (Robert Kirkman / Jay Bonansinga)



Embora um recinto aconchegante se considerado o caos que o mundo vivia, Woodbury era também um reino de selvageria comandado por um líder perverso e desvirtuado. Haja vista as lutas que promovia na arena, como forma de divertir os moradores e iludi-los do caos, com duelos em meio a zumbis decompostos e famintos. A personalidade atroz de Philip não era conhecida por todos, o que lhe garantia certo prestígio e mérito por ser visto como um defensor heroico. Nesse contexto, vivia Lilly Caul, ainda atormentada pelos acontecimentos do último episódio (O caminho para Woodbury) e também deprimida pela dor não resolvida provocada pela morte dos amigos e do namorado. Somente a presença amiga de Austin, soava como um alívio para o clima depressivo que vivia.
Woodbury era uma “ilha” rodeada pelos temíveis mortos-vivos, de forma que, dentro de seus limites, todos estavam seguros. A imagem benéfica de Philip era a bandeira de sua campanha entre os habitantes. Seu lado perverso era conhecido somente pelos seus capangas, pelo Dr. Stevens e sua auxiliar, Alice. A ditadura de seus atos era algo jamais visto na história da humanidade, de forma que àqueles que presenciavam suas atrocidades restava o silêncio, caso não quisessem se juntar à horda de zumbis que assolava o mundo externo.
     Esse terceiro volume da série satisfaz o apetite de muitos fãs da franquia The Walking Dead, quando promove a interligação das três mídias: as histórias em quadrinhos, o seriado televisivo e os livros. Durante a narrativa, um trio chega a Woodbury. São Michonne, Rick e Gleen, que foram capturados por Martinez e levados ao Governador como ameaça em potencial. O que acontece é um show de atrocidades da mais cruel categoria: Rick tem a mão direita decepada pelo Governador; Michonne é abusada e espancada covardemente; Gleen é mantido em cárcere e torturado como uma isca para que os capangas descubram a verdade sobre alguns rumores a respeito de certa prisão nos arredores. Na verdade, o trio vinha de um refúgio muito mais seguro e Philip desejava, a qualquer custo, apoderar-se do local. O conflito de interesses colocaria à prova o poder de comando do Governador e a segurança do grupo de Rick. A pequena sociedade de Woodbury chegava a um ponto onde ninguém era digno de confiança, principalmente aqueles que garantiam a segurança e manutenção da ordem no local.
     Um aspecto interessante que se pode destacar é a percepção construída a partir de três visões diferentes: a do povo de Woodbury, que via na pessoa do Governador a figura de um líder emergente, capaz de garantir-lhes um mínimo da dignidade que perderam com o início da praga; Lily Caul e Austin, cujo clima de romance, dava-lhes esperança de que dias melhores viriam; Rick, Michonne e Gleen, que tinham consciência de ter encontrado uma ameaça ainda mais temível do que a própria horda de zumbis.
    Dos três primeiros livros lançados, talvez esse seja o mais digno de representar o universo de The Walking Dead: muitos zumbis, inúmeros detalhes sórdidos e nojentos, ataques inesperados de humanos e mortos-vivos, um clima de tensão, medo e suspense sempre presente, desafiando o leitor a parar de ler, se for capaz. Embora introduza a figura dos protagonistas do seriado lançado pela AMC, a figura central de toda a narrativa continua sendo o Governador com sua personalidade dúbia e perversa. Dessa forma, a tônica da narrativa possui um escopo muito mais político do que ligado à sobrevivência e destruição dos mortos-vivos. É também uma leitura obrigatória para os fãs da série, já que fornece detalhes e histórias que as outras mídias não aprofundam o suficiente (por exemplo, Lily Caul, que nas histórias em quadrinhos tem um papel importante na “queda do Governador”).

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:       Walking Dead, The
Subtítulo:  a queda do Governador - Parte Um
Autoria:     Robert Kirkman / Jay Bonansinga
Editora:     Galera Record
Ano:          2014
Local:        São Paulo
Edição:      6ª
Série:        The Walking Dead - Livro III
Gênero:     Zumbi | Suspense

Confira o trailer da série lançada em 2010:



terça-feira, 20 de junho de 2017

O Crepúsculo do Mundo (Allan Massie)

Allan Massie é um autor especialista em romances históricos. Neste, conta a história de Marcos, de quem se dizia ser filho de São Miguel Arcanjo, durante o período das invasões bárbaras ao Império Romano. O título se justifica pois o autor enfatiza uma época crepuscular em que o mundo vinha adormecendo de uma cultura marcadamente impregnada pelos mitos e uma visão religiosa da sociedade, para uma cultura onde o cristianismo começava a ser alvo de questionamentos e os barbarismos ameaçavam o poder político. Concomitantemente, tal período marca também o início de acontecimentos que levariam ao declínio do Império Romano.
Marcos é um jovem que, durante suas aventuras, perpassa pelos povos gregos e italianos, como quem descobre um outro lado do mundo na Idade Média. Durante suas expedições, os personagens que encontra o fazem explorar seus principais conceitos sobre a religião, especialmente sobre o cristianismo, credo que ele mesmo professava. Num mundo cujo cristianismo ainda é profundamente marcado pela visão mítica e por lendas, Marcos conhece também o lado lascivo que muitos de seus adeptos praticavam, sem remorso ou temor pela concepção de pecado, mas sim entregues aos prazeres e paixões, muitas vezes justificadas por conceitos filosóficos.
O início da jornada de Marcos começa quando o Imperador Honório o envia, acompanhado do Padre Bernardo, do cavalariço grego Quíron e do pajem Gito para que fosse o mensageiro responsável por levar sua mensagem de trégua junto aos visigodos, liderados pelo irredutível Alarico. No entanto, a irmã do rei, princesa Honória, tinha outros intuitos discordantes do imperador, já que ela buscava também perverter o sagaz João, o Entendido, conselheiro de Alarico, por quem nutria grande aversão. A proposta soaria ineficaz e os visigodos partiriam rumo a Roma para um saque que entraria definitivamente para a história romana como um dos eventos mais desastrosos de sua existência.
Em suas aventuras, por conveniência, Marcos se casa com uma grega de nome Artemísia, filha de Melanipos, um rico proprietário de cavalos e vinhedos, ainda que seu coração fosse mais afeto a Pulquérrima. Ao passar por Constantinopla, a imperatriz Eudóxia o envia para uma nova missão, sob a recomendação de que Artemísia ficasse a seu serviço até que Marcos retornasse da perigosa saga. Contudo, traiçoeira que era, a imperatriz manda cegar Artemísia e deixá-la vagar como mendiga pelo império de Constantino, relatando uma história trágica para Marcos, quando esse regressa à pedido da própria imperatriz. Nesse episódio vemos uma trama envolvendo o famoso João Crisóstomo, arcebispo que tecia duras críticas ao comportamento da imperatriz.
A história é entremeada pelos deuses e heróis gregos e romanos, revelando os reflexos que uma era de mitos ainda respingavam em uma cultura cujo cristianismo era a religião dominante. Há um debate em torno do que seria o Santo Graal, talvez até mesmo antecipando a lenda do próximo volume da Trilogia Eterna Roma, Rei Artur. Como romance histórico, a preocupação do autor em manter o caráter narrativo oculta um pouco caráter informativo que alguns leitores talvez possam esperar. Contudo, ao viajar por um dos mais emblemáticos períodos da civilização humana, a história não perde seu valor, ainda que sua trama possua traços essencialmente fictícios. Enfim, inaugurando a trilogia Eterna Roma a obra tem o mérito de louvar a perenidade do Império Romano, mesmo em tempos de duras crises.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:      Crepúsculo do Mundo, O
Subtítulo: um romance da Idade das Trevas
Autoria:    Allan Massie
Editora:    Ediouro
Ano:         2002
Local:       Rio de Janeiro
Série:       Eterna Roma - Vol. I
Gênero:    Épico | História

sábado, 10 de junho de 2017

Os Últimos Dias de Krypton (Kevin James Anderson)

O mundo já conhece o personagem lendário dos quadrinhos que a DC Comics criou e imortalizou. Agora é o momento de conhecer, em forma de prosa, a gênese do Super-Homem, bem como fatos inéditos de seus antepassados. É essa a tarefa que Kevin Anderson se propõe nesta obra magnífica.
Krypton era um planeta governado por um conselho composto por onze membros e vivia dias de paz, graças às regras que regiam a sociedade. Jor-El era um cientista de renome, conhecido por suas diversas invenções, ainda que muitas delas tenham sido vetadas pelo membro da Comissão para Aceitação da Tecnologia, comissário Zod, por encontrar riscos à sociedade, caso aquelas invenções caíssem em mãos erradas. Assim foi com a Zona Fantasma, uma espécie de prisão no vácuo, cujo próprio Jor-El experimentara, sendo salvo graças à intervenção de sua amiga Lara.
Jor-El era irmão de Zor-El, líder e governador da cidade de Argo City. Enquanto um era dedicado à vida científica, o outro gastava sua vida para o bem-estar de seu povo. Mas o conhecimento tecnológico de ambos levara-os a uma terrível constatação: o sol de Krypton, Rao, estava entrando em supernova e o núcleo do planeta apresentava atividades sísmicas cada vez mais incomuns. Tudo isso indicava que o fim daquele planeta era iminente, demandando das autoridades uma rápida intervenção, no sentido de levar a população para outro planeta mais seguro. Contudo, o Conselho era cético em relação às ameaças informadas pelos irmãos, ainda mais porque a constatação deles era fruto de cálculos complexos, pouco havendo indícios factuais que o confirmassem.
Certo dia, Jor-El recebera a visita de Donodon, um alienígena que já observara diversos planetas cujos habitantes possuíam traços semelhantes aos dos moradores de Krypton. Entre eles, destacava-se o planeta Terra. No entanto, um acidente provocado por uma das invenções de Jor-El, causara a morte de Donodon, fazendo com que o comissário Zod o acusasse perante o Conselho. O julgamento de Jor-El estava marcado e dificilmente se livraria das acusações. Seu consolo era somente sua nova esposa, Lara, com quem se casara recentemente. Porém, durante a lua de mel, uma artimanha tramada por Zod fizera com que a capital de Krypton, Kandor, fosse dizimada do mapa, exterminando também todos os membros do conselho. Consequentemente, Zod montara seu próprio conselho e se autodeclarara General Zod, governando juntamente com sua esposa Aethyr. Enquanto isso, a ameaça de Rao era uma constante e a situação do planeta tornava-se ainda mais vulnerável, principalmente pela descoberta de um novo perigo: um cometa batizado como “Martelo de Ur” que estava em rota de colisão com Krypton. Porém, o General Zod era um líder tirano e vaidoso e pouco se importaria com essas ameaças, já que seu maior objetivo era consolidar seu poderio e submeter todos os kryptonianos a seu domínio. Kryptonopolis era a nova capital e nova ordem instaurada só podia ser combatida por Zor-El e os líderes aliados das outras cidades. Enquanto isso, Jor-El tentaria desesperadamente encontrar uma salvação a nível planetário, movido principalmente pela paixão por Lara e pelo sonho de que seu filho, Kal-El, ainda no ventre materno, pudesse vir a habitar em um lugar melhor.
Os Últimos Dias de Krypton é um livro cujos fatos se comunicam e intercalam perfeitamente, criando um enredo estimulante para o leitor. Com capítulos curtos e bem delineados, aos poucos o autor vai narrando o jogo de poder que, ao invés da salvação, culminara na destruição do lar kryptoniano. A questão política é muito presente, mas a trama cede espaço também para as relações afetivas, especialmente o romance entre Lara e Jor-El, que é contado desde os primeiros encontros entre os dois. Uma leitura para além do enredo aventureiro ensinará também a importância do cultivo da memória dos antepassados. Os fãs mais conhecedores da história do Superman, especialmente aquela contada nos quadrinhos, poderão dizer com mais propriedade se essa obra é uma celebração louvável da origem do personagem ou uma distorção deprimente da real história de Krypton. Opiniões à parte, a obra não deixa de ser a narração de uma aventura extremamente agradável de ler.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:   Últimos Dias de Krypton, Os
Autoria: Kevin James Anderson
Editora: Casa da Palavra
Ano:      2013
Local:    Rio de Janeiro
Gênero: Aventura | Drama

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Duas narrativas fantásticas: A Dócil e O Sonho de um Homem Ridículo (Fiódor Dostoiévski)

Definidas pelo próprio autor como “narrativas fantásticas” esse livro traz dois pequenos contos, os quais repercutem o talento do consagrado autor russo. Histórias que transcendem a narrativa dos fatos e contribuem filosoficamente para refletir sobre as questões que permeiam a existência humana e temas recorrentes na obra dostoievskiana: perdão, culpa, significado da vida, transcendência, etc..
Ambos os contos possuem um traço em comum que é o caráter autoreflexivo diante de um fato inicial, ao estilo de monólogos. No primeiro, A Dócil (1876), um ex-oficial que havia sido humilhado por recusar-se a cumprir uma ordem e que agora era dono de uma casa de penhores, de repente se apaixona por uma jovem recém-saída da adolescência, pobre e órfã. Nessa narrativa breve, ele apresenta suas impressões sobre a vida a dois, buscando desvendar os segredos que a parceira trazia em seu íntimo e, para além de tais reflexões, buscando compreender os motivos que a levaram ao suicídio, quando tudo parecia ir muito bem. Ele havia evitado que a garota se casasse com um homem rude e também contribuíra para que ela saísse da casa das tias. No entanto, era ele quem ditava às regras dentro de casa, fazendo com que ela se tornasse uma esposa submissa e servil, enunciando os ares introspectivos em que vivia. Tudo isso é refletido quando ele se encontra diante do corpo da amada, arrependido por seus cinco minutos de atraso, o que, em sua opinião, poderia ter evitado aquele desfecho trágico.
No segundo, O Sonho de um Homem Ridículo (1877), um homem decidido a por fim na própria vida, está sentado em sua poltrona, diante de um revólver carregado. Contemplando a arma, adormece e viaja por um sonho utópico que, em síntese, traduz a dor e a beleza da própria vida. Ainda que seja um sonho, reveste-se do mais puro realismo, e leva-o à compreensão de que é ele mesmo quem perverte as situações, fazendo com que elas pareçam não ter qualquer valor ou que sejam piores do que realmente são. Tudo isso é vivenciado a partir do encontro com uma menininha, que o leva a enxergar que ainda há muito o que viver. No mais belo estilo dostoievskiano, a reflexão conduzirá o homem a ver a beleza oculta nas tragédias da vida, fazendo com que ela seja algo válido: “’A consciência da vida é superior à vida, o conhecimento das leis da felicidade – é superior à felicidade’ – é contra isso que é preciso lutar!” (p. 123).
As duas pequenas narrativas condensadas nesse livro permitem uma breve noção do pensamento filosófico de Dostoievski em seu caráter existencialista. Autor de livros grandes e densos, nesses dois contos é possível compreender como o homem está no centro de sua própria metafísica, sendo que as inconsistências da vida é o que o levam a refletir sobre como ele se posiciona frente aos acontecimentos. Interessante na obra do pensador russo é o fato de que, diferentemente de muitos pensadores existenciais que exageram no drama, dando a impressão de que a vida, ainda que bem vivida, é um constante pessimismo, Dostoievski, ao contrário, parte dos dramas para as superações, dando o tom de transcendência e realização humanas. Para ele, o homem que reflete seus infortúnios, ainda que seja triturado por eles, no final deve encontrar um caminho de síntese que o faça transcender para níveis existenciais mais elevados e reconfortantes. É o que acontece, principalmente na segunda narrativa desse livro. Ao leitor que se pôs a refletir um pouco com essas duas histórias, fica o convite para mergulhar ainda mais na obra de Dostoievski que, louvores à parte, é um dos melhores remédios para as grandes crises existenciais dos tempos modernos.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:      Duas Narrativas Fantásticas
Subtítulo: A Dócil e O Sonho de um Homem Ridículo
Autoria:    Fiódor Dostoiévski
Editora:    Editora 34
Ano:         2003
Local:       São Paulo
Gênero:    Drama | Filosofia

Confira o curta-metragem de "O Sonho de um Homem Ridículo" produzido em 1992:


domingo, 21 de maio de 2017

Tibério (Allan Massie)

            A história do imperador contada por Allan Massie nesse quarto volume da Série Senhores de Roma, é a história do homem cujas circunstâncias da vida levaram-no a tomar decisões contrárias a suas verdadeiras aspirações, no intuito de servir a um bem maior: seu dever para com o Estado.
            Tibério havia se casado com Vipsânia e era feliz. Contudo, após a morte de Agripa, general do Imperador Augusto, por conveniência política o imperador fez com que Tibério se divorciasse e contraísse uma nova união com sua filha viúva, Júlia. Augusto havia concedido a Tibério títulos e honrarias que o destacavam entre os senadores mas que, no fundo, alimentavam o despotismo do imperador. Após 20 anos de serviço à República, Tibério decidiu se exilar na Ilha de Rodes, onde dedicaria sua vida aos estudos, provocando grande contrariedade ao imperador. Uma traição cometida por sua esposa Júlia também impulsionara tal decisão.
            Nomeado como seu sucessor pelo Imperador Augusto, quando este falecera, Tibério assumiu o trono de Roma. Tentou convencer o Senado de que era necessário consolidar o império ao invés de expandi-lo, bem como acabar com o despotismo, descentralizando o poder. No entanto, a opinião dos senadores era contrária, obrigando-o a promover campanhas que expandissem os domínios de Roma, principalmente ao norte, nos territórios da Germânia e Panônia. Tibério e o Senado tiveram alguns atritos e o poder deste foi reduzido, embora ainda permanecesse como o principal detentor das nomeações de magistrados.
            Tibério destacou-se por sua carreira militar e por consolidar o poder romano principalmente em suas fronteiras. Foi durante seu governo que Jesus Cristo foi crucificado, muito embora este episódio não tivesse representado grande impacto em Roma. Em relação aos judeus, o imperador tomou medidas que fizeram com que toda a comunidade fosse exilada. Um de seus principais aliados, Lúcio Élio Sejano, havia sido executado logo após descobrir uma conspiração para destronar Tibério. Tal fato contribuiu ainda mais para a paranoia que o imperador já alimentava pelas conspirações. Tibério zelou pela conservação da Pax Romana alcançada a duras penas pelo seu antecessor. Decretou o fim das batalhas entre os gladiadores, consequentemente provocando o ódio entre a população. Faleceu em 37 d.C., suscitando o regozijo do povo romano.
            A história descreve Tibério como um homem tímido e taciturno, atormentando pelas contrariedades que sofrera. Jamais sonhara em tornar-se imperador, sendo escolhido por seu padrasto Augusto, mesmo que a contragosto. As diversas campanhas militares e as conspirações que sofrera desgastaram ainda mais sua personalidade. Como uma biografia supostamente escrita pelo próprio imperador, nessa obra temos um pouco de sua filosofia, o modo de administração da república, suas memórias e reflexões em um universo repleto de disparates e inimigos. Enfim, uma narrativa sobre a dura tarefa de governar, ainda que as intenções sirvam a chamados maiores do que as próprias pretensões.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:   Tibério
Autoria: Allan Massie
Editora: Ediouro
Ano:      2005
Local:    Rio de Janeiro
Série:    Senhores de Roma, Os - Livro IV
Gênero: Épico

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Deus e a Cabana: entendendo a presença divina no best-seller de William P. Young (Roger E. Olson)

deus e a cabana          Depois do sucesso obtido pela publicação da obra de William P. Young, Roger E. Olson, PhD e professor de teologia na George W. Truett Theological Seminary, na Baylor University (Waco – Texas), tece sua análise do tema proposto por Young. Mesmo sendo um romance de cunho exclusivamente fictício, A Cabana aborda questões muito próximas daquelas vividas por pessoas que passaram por situações semelhantes: sentimentos de perda, falta de fé, desilusão, tristeza, etc.. Sob uma ótica espiritual e religiosa, remetem à dúvida acerca da existência de Deus: se de fato ele nos ama, por que permite que crianças inocentes sejam assassinadas por maníacos, além de outras atrocidades que acontecem no mundo? Esta e outras questões são investigadas por Olson em Deus e a Cabana, à luz do próprio best-seller de William Young, da tradição bíblica e dos instrumentais da teologia.
          Apesar de lidar com aspectos teológicos como, por exemplo, a essência de Deus expressa em um único ser e três pessoas distintas que, no romance, Young materializa e identifica como Papai, Jesus e Sarayu, Roger Olson tenta deixar claro que o livro não deve ser confrontado com uma teologia nata. O propósito do autor de A Cabana era construir uma história que retratasse a presença de Deus na história dos homens e de um homem em particular: Mackenzie. Em vista disso, ele parte de um terreno mais real, que é fornecido pelo modo de entender Deus na ótica de algumas doutrinas religiosas. Isto não impede de confirmarmos muitos pontos que são abordados no romance, mas a aproximação deve ser cautelosa, já que a materialização de Deus não condiz com o ser com que os que acreditam nele relacionam.
          A análise feita por Olson vem mostrar dois planos de uma mesma realidade: a ação de Deus e a liberdade dos homens. Nesse aspecto se situa o relacionamento de um com o outro. A história de Young busca abordar o mistério do amor de Deus na procura do homem, mesmo quando não evita que ele passe por um sofrimento arrasador.
          Mesmo com uma história de vida marcada pela influência religiosa e dando mostras de que é adepto a uma religião, a análise de Olson não parte dos aspectos doutrinários de alguma igreja. Trata-se de uma visão mais holística do fenômeno da fé e não limitada por dogmas.
          Embora o autor enalteça a engenhosidade do romance de Young, ele também faz algumas críticas e discorda de alguns pontos-de-vista. Uma dessas é o fato de Young ressaltar uma fé muito individualista e nada abordar sobre a dimensão comunitária da mesma. Isto é visto por Olson, como uma falha do autor já que a ideia de que Deus é um ser de relacionamento e de comunhão, está explícita nas linhas do romance e nos diálogos de Mack com a Santíssima Trindade.
          Críticas à parte, Olson que mostrar a importância de se cultivar uma visão de Deus, não a partir de nossos sofrimentos e dores, mas a partir de seu imenso amor e sua capacidade de transformar nossas vidas. É esse o grande milagre da existência, de ter uma vida restaurada pelo perdão e pelo amor.
 
REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:      Deus e a Cabana
Subtítulo: entendendo a presença divina no best-seller de William P. Young
Autoria:    Roger E. Olson
Editora:    Thomas Nelson Brasil
Ano:         2009
Local:       Rio de Janeiro
Gênero:    Espiritualidade | Religião

Confira o trailer da adaptação do filme "A Cabana" para o cinema lançada em 2017: