terça-feira, 20 de junho de 2017

O Crepúsculo do Mundo (Allan Massie)

Allan Massie é um autor especialista em romances históricos. Neste, conta a história de Marcos, de quem se dizia ser filho de São Miguel Arcanjo, durante o período das invasões bárbaras ao Império Romano. O título se justifica pois o autor enfatiza uma época crepuscular em que o mundo vinha adormecendo de uma cultura marcadamente impregnada pelos mitos e uma visão religiosa da sociedade, para uma cultura onde o cristianismo começava a ser alvo de questionamentos e os barbarismos ameaçavam o poder político. Concomitantemente, tal período marca também o início de acontecimentos que levariam ao declínio do Império Romano.
Marcos é um jovem que, durante suas aventuras, perpassa pelos povos gregos e italianos, como quem descobre um outro lado do mundo na Idade Média. Durante suas expedições, os personagens que encontra o fazem explorar seus principais conceitos sobre a religião, especialmente sobre o cristianismo, credo que ele mesmo professava. Num mundo cujo cristianismo ainda é profundamente marcado pela visão mítica e por lendas, Marcos conhece também o lado lascivo que muitos de seus adeptos praticavam, sem remorso ou temor pela concepção de pecado, mas sim entregues aos prazeres e paixões, muitas vezes justificadas por conceitos filosóficos.
O início da jornada de Marcos começa quando o Imperador Honório o envia, acompanhado do Padre Bernardo, do cavalariço grego Quíron e do pajem Gito para que fosse o mensageiro responsável por levar sua mensagem de trégua junto aos visigodos, liderados pelo irredutível Alarico. No entanto, a irmã do rei, princesa Honória, tinha outros intuitos discordantes do imperador, já que ela buscava também perverter o sagaz João, o Entendido, conselheiro de Alarico, por quem nutria grande aversão. A proposta soaria ineficaz e os visigodos partiriam rumo a Roma para um saque que entraria definitivamente para a história romana como um dos eventos mais desastrosos de sua existência.
Em suas aventuras, por conveniência, Marcos se casa com uma grega de nome Artemísia, filha de Melanipos, um rico proprietário de cavalos e vinhedos, ainda que seu coração fosse mais afeto a Pulquérrima. Ao passar por Constantinopla, a imperatriz Eudóxia o envia para uma nova missão, sob a recomendação de que Artemísia ficasse a seu serviço até que Marcos retornasse da perigosa saga. Contudo, traiçoeira que era, a imperatriz manda cegar Artemísia e deixá-la vagar como mendiga pelo império de Constantino, relatando uma história trágica para Marcos, quando esse regressa à pedido da própria imperatriz. Nesse episódio vemos uma trama envolvendo o famoso João Crisóstomo, arcebispo que tecia duras críticas ao comportamento da imperatriz.
A história é entremeada pelos deuses e heróis gregos e romanos, revelando os reflexos que uma era de mitos ainda respingavam em uma cultura cujo cristianismo era a religião dominante. Há um debate em torno do que seria o Santo Graal, talvez até mesmo antecipando a lenda do próximo volume da Trilogia Eterna Roma, Rei Artur. Como romance histórico, a preocupação do autor em manter o caráter narrativo oculta um pouco caráter informativo que alguns leitores talvez possam esperar. Contudo, ao viajar por um dos mais emblemáticos períodos da civilização humana, a história não perde seu valor, ainda que sua trama possua traços essencialmente fictícios. Enfim, inaugurando a trilogia Eterna Roma a obra tem o mérito de louvar a perenidade do Império Romano, mesmo em tempos de duras crises.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:      Crepúsculo do Mundo, O
Subtítulo: um romance da Idade das Trevas
Autoria:    Allan Massie
Editora:    Ediouro
Ano:         2002
Local:       Rio de Janeiro
Série:       Eterna Roma - Vol. I
Gênero:    Épico | História

sábado, 10 de junho de 2017

Os Últimos Dias de Krypton (Kevin James Anderson)

O mundo já conhece o personagem lendário dos quadrinhos que a DC Comics criou e imortalizou. Agora é o momento de conhecer, em forma de prosa, a gênese do Super-Homem, bem como fatos inéditos de seus antepassados. É essa a tarefa que Kevin Anderson se propõe nesta obra magnífica.
Krypton era um planeta governado por um conselho composto por onze membros e vivia dias de paz, graças às regras que regiam a sociedade. Jor-El era um cientista de renome, conhecido por suas diversas invenções, ainda que muitas delas tenham sido vetadas pelo membro da Comissão para Aceitação da Tecnologia, comissário Zod, por encontrar riscos à sociedade, caso aquelas invenções caíssem em mãos erradas. Assim foi com a Zona Fantasma, uma espécie de prisão no vácuo, cujo próprio Jor-El experimentara, sendo salvo graças à intervenção de sua amiga Lara.
Jor-El era irmão de Zor-El, líder e governador da cidade de Argo City. Enquanto um era dedicado à vida científica, o outro gastava sua vida para o bem-estar de seu povo. Mas o conhecimento tecnológico de ambos levara-os a uma terrível constatação: o sol de Krypton, Rao, estava entrando em supernova e o núcleo do planeta apresentava atividades sísmicas cada vez mais incomuns. Tudo isso indicava que o fim daquele planeta era iminente, demandando das autoridades uma rápida intervenção, no sentido de levar a população para outro planeta mais seguro. Contudo, o Conselho era cético em relação às ameaças informadas pelos irmãos, ainda mais porque a constatação deles era fruto de cálculos complexos, pouco havendo indícios factuais que o confirmassem.
Certo dia, Jor-El recebera a visita de Donodon, um alienígena que já observara diversos planetas cujos habitantes possuíam traços semelhantes aos dos moradores de Krypton. Entre eles, destacava-se o planeta Terra. No entanto, um acidente provocado por uma das invenções de Jor-El, causara a morte de Donodon, fazendo com que o comissário Zod o acusasse perante o Conselho. O julgamento de Jor-El estava marcado e dificilmente se livraria das acusações. Seu consolo era somente sua nova esposa, Lara, com quem se casara recentemente. Porém, durante a lua de mel, uma artimanha tramada por Zod fizera com que a capital de Krypton, Kandor, fosse dizimada do mapa, exterminando também todos os membros do conselho. Consequentemente, Zod montara seu próprio conselho e se autodeclarara General Zod, governando juntamente com sua esposa Aethyr. Enquanto isso, a ameaça de Rao era uma constante e a situação do planeta tornava-se ainda mais vulnerável, principalmente pela descoberta de um novo perigo: um cometa batizado como “Martelo de Ur” que estava em rota de colisão com Krypton. Porém, o General Zod era um líder tirano e vaidoso e pouco se importaria com essas ameaças, já que seu maior objetivo era consolidar seu poderio e submeter todos os kryptonianos a seu domínio. Kryptonopolis era a nova capital e nova ordem instaurada só podia ser combatida por Zor-El e os líderes aliados das outras cidades. Enquanto isso, Jor-El tentaria desesperadamente encontrar uma salvação a nível planetário, movido principalmente pela paixão por Lara e pelo sonho de que seu filho, Kal-El, ainda no ventre materno, pudesse vir a habitar em um lugar melhor.
Os Últimos Dias de Krypton é um livro cujos fatos se comunicam e intercalam perfeitamente, criando um enredo estimulante para o leitor. Com capítulos curtos e bem delineados, aos poucos o autor vai narrando o jogo de poder que, ao invés da salvação, culminara na destruição do lar kryptoniano. A questão política é muito presente, mas a trama cede espaço também para as relações afetivas, especialmente o romance entre Lara e Jor-El, que é contado desde os primeiros encontros entre os dois. Uma leitura para além do enredo aventureiro ensinará também a importância do cultivo da memória dos antepassados. Os fãs mais conhecedores da história do Superman, especialmente aquela contada nos quadrinhos, poderão dizer com mais propriedade se essa obra é uma celebração louvável da origem do personagem ou uma distorção deprimente da real história de Krypton. Opiniões à parte, a obra não deixa de ser a narração de uma aventura extremamente agradável de ler.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:   Últimos Dias de Krypton, Os
Autoria: Kevin James Anderson
Editora: Casa da Palavra
Ano:      2013
Local:    Rio de Janeiro
Gênero: Aventura | Drama

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Duas narrativas fantásticas: A Dócil e O Sonho de um Homem Ridículo (Fiódor Dostoiévski)

Definidas pelo próprio autor como “narrativas fantásticas” esse livro traz dois pequenos contos, os quais repercutem o talento do consagrado autor russo. Histórias que transcendem a narrativa dos fatos e contribuem filosoficamente para refletir sobre as questões que permeiam a existência humana e temas recorrentes na obra dostoievskiana: perdão, culpa, significado da vida, transcendência, etc..
Ambos os contos possuem um traço em comum que é o caráter autoreflexivo diante de um fato inicial, ao estilo de monólogos. No primeiro, A Dócil (1876), um ex-oficial que havia sido humilhado por recusar-se a cumprir uma ordem e que agora era dono de uma casa de penhores, de repente se apaixona por uma jovem recém-saída da adolescência, pobre e órfã. Nessa narrativa breve, ele apresenta suas impressões sobre a vida a dois, buscando desvendar os segredos que a parceira trazia em seu íntimo e, para além de tais reflexões, buscando compreender os motivos que a levaram ao suicídio, quando tudo parecia ir muito bem. Ele havia evitado que a garota se casasse com um homem rude e também contribuíra para que ela saísse da casa das tias. No entanto, era ele quem ditava às regras dentro de casa, fazendo com que ela se tornasse uma esposa submissa e servil, enunciando os ares introspectivos em que vivia. Tudo isso é refletido quando ele se encontra diante do corpo da amada, arrependido por seus cinco minutos de atraso, o que, em sua opinião, poderia ter evitado aquele desfecho trágico.
No segundo, O Sonho de um Homem Ridículo (1877), um homem decidido a por fim na própria vida, está sentado em sua poltrona, diante de um revólver carregado. Contemplando a arma, adormece e viaja por um sonho utópico que, em síntese, traduz a dor e a beleza da própria vida. Ainda que seja um sonho, reveste-se do mais puro realismo, e leva-o à compreensão de que é ele mesmo quem perverte as situações, fazendo com que elas pareçam não ter qualquer valor ou que sejam piores do que realmente são. Tudo isso é vivenciado a partir do encontro com uma menininha, que o leva a enxergar que ainda há muito o que viver. No mais belo estilo dostoievskiano, a reflexão conduzirá o homem a ver a beleza oculta nas tragédias da vida, fazendo com que ela seja algo válido: “’A consciência da vida é superior à vida, o conhecimento das leis da felicidade – é superior à felicidade’ – é contra isso que é preciso lutar!” (p. 123).
As duas pequenas narrativas condensadas nesse livro permitem uma breve noção do pensamento filosófico de Dostoievski em seu caráter existencialista. Autor de livros grandes e densos, nesses dois contos é possível compreender como o homem está no centro de sua própria metafísica, sendo que as inconsistências da vida é o que o levam a refletir sobre como ele se posiciona frente aos acontecimentos. Interessante na obra do pensador russo é o fato de que, diferentemente de muitos pensadores existenciais que exageram no drama, dando a impressão de que a vida, ainda que bem vivida, é um constante pessimismo, Dostoievski, ao contrário, parte dos dramas para as superações, dando o tom de transcendência e realização humanas. Para ele, o homem que reflete seus infortúnios, ainda que seja triturado por eles, no final deve encontrar um caminho de síntese que o faça transcender para níveis existenciais mais elevados e reconfortantes. É o que acontece, principalmente na segunda narrativa desse livro. Ao leitor que se pôs a refletir um pouco com essas duas histórias, fica o convite para mergulhar ainda mais na obra de Dostoievski que, louvores à parte, é um dos melhores remédios para as grandes crises existenciais dos tempos modernos.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:      Duas Narrativas Fantásticas
Subtítulo: A Dócil e O Sonho de um Homem Ridículo
Autoria:    Fiódor Dostoiévski
Editora:    Editora 34
Ano:         2003
Local:       São Paulo
Gênero:    Drama | Filosofia

Confira o curta-metragem de "O Sonho de um Homem Ridículo" produzido em 1992:


domingo, 21 de maio de 2017

Tibério (Allan Massie)

            A história do imperador contada por Allan Massie nesse quarto volume da Série Senhores de Roma, é a história do homem cujas circunstâncias da vida levaram-no a tomar decisões contrárias a suas verdadeiras aspirações, no intuito de servir a um bem maior: seu dever para com o Estado.
            Tibério havia se casado com Vipsânia e era feliz. Contudo, após a morte de Agripa, general do Imperador Augusto, por conveniência política o imperador fez com que Tibério se divorciasse e contraísse uma nova união com sua filha viúva, Júlia. Augusto havia concedido a Tibério títulos e honrarias que o destacavam entre os senadores mas que, no fundo, alimentavam o despotismo do imperador. Após 20 anos de serviço à República, Tibério decidiu se exilar na Ilha de Rodes, onde dedicaria sua vida aos estudos, provocando grande contrariedade ao imperador. Uma traição cometida por sua esposa Júlia também impulsionara tal decisão.
            Nomeado como seu sucessor pelo Imperador Augusto, quando este falecera, Tibério assumiu o trono de Roma. Tentou convencer o Senado de que era necessário consolidar o império ao invés de expandi-lo, bem como acabar com o despotismo, descentralizando o poder. No entanto, a opinião dos senadores era contrária, obrigando-o a promover campanhas que expandissem os domínios de Roma, principalmente ao norte, nos territórios da Germânia e Panônia. Tibério e o Senado tiveram alguns atritos e o poder deste foi reduzido, embora ainda permanecesse como o principal detentor das nomeações de magistrados.
            Tibério destacou-se por sua carreira militar e por consolidar o poder romano principalmente em suas fronteiras. Foi durante seu governo que Jesus Cristo foi crucificado, muito embora este episódio não tivesse representado grande impacto em Roma. Em relação aos judeus, o imperador tomou medidas que fizeram com que toda a comunidade fosse exilada. Um de seus principais aliados, Lúcio Élio Sejano, havia sido executado logo após descobrir uma conspiração para destronar Tibério. Tal fato contribuiu ainda mais para a paranoia que o imperador já alimentava pelas conspirações. Tibério zelou pela conservação da Pax Romana alcançada a duras penas pelo seu antecessor. Decretou o fim das batalhas entre os gladiadores, consequentemente provocando o ódio entre a população. Faleceu em 37 d.C., suscitando o regozijo do povo romano.
            A história descreve Tibério como um homem tímido e taciturno, atormentando pelas contrariedades que sofrera. Jamais sonhara em tornar-se imperador, sendo escolhido por seu padrasto Augusto, mesmo que a contragosto. As diversas campanhas militares e as conspirações que sofrera desgastaram ainda mais sua personalidade. Como uma biografia supostamente escrita pelo próprio imperador, nessa obra temos um pouco de sua filosofia, o modo de administração da república, suas memórias e reflexões em um universo repleto de disparates e inimigos. Enfim, uma narrativa sobre a dura tarefa de governar, ainda que as intenções sirvam a chamados maiores do que as próprias pretensões.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:   Tibério
Autoria: Allan Massie
Editora: Ediouro
Ano:      2005
Local:    Rio de Janeiro
Série:    Senhores de Roma, Os - Livro IV
Gênero: Épico

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Deus e a Cabana: entendendo a presença divina no best-seller de William P. Young (Roger E. Olson)

deus e a cabana          Depois do sucesso obtido pela publicação da obra de William P. Young, Roger E. Olson, PhD e professor de teologia na George W. Truett Theological Seminary, na Baylor University (Waco – Texas), tece sua análise do tema proposto por Young. Mesmo sendo um romance de cunho exclusivamente fictício, A Cabana aborda questões muito próximas daquelas vividas por pessoas que passaram por situações semelhantes: sentimentos de perda, falta de fé, desilusão, tristeza, etc.. Sob uma ótica espiritual e religiosa, remetem à dúvida acerca da existência de Deus: se de fato ele nos ama, por que permite que crianças inocentes sejam assassinadas por maníacos, além de outras atrocidades que acontecem no mundo? Esta e outras questões são investigadas por Olson em Deus e a Cabana, à luz do próprio best-seller de William Young, da tradição bíblica e dos instrumentais da teologia.
          Apesar de lidar com aspectos teológicos como, por exemplo, a essência de Deus expressa em um único ser e três pessoas distintas que, no romance, Young materializa e identifica como Papai, Jesus e Sarayu, Roger Olson tenta deixar claro que o livro não deve ser confrontado com uma teologia nata. O propósito do autor de A Cabana era construir uma história que retratasse a presença de Deus na história dos homens e de um homem em particular: Mackenzie. Em vista disso, ele parte de um terreno mais real, que é fornecido pelo modo de entender Deus na ótica de algumas doutrinas religiosas. Isto não impede de confirmarmos muitos pontos que são abordados no romance, mas a aproximação deve ser cautelosa, já que a materialização de Deus não condiz com o ser com que os que acreditam nele relacionam.
          A análise feita por Olson vem mostrar dois planos de uma mesma realidade: a ação de Deus e a liberdade dos homens. Nesse aspecto se situa o relacionamento de um com o outro. A história de Young busca abordar o mistério do amor de Deus na procura do homem, mesmo quando não evita que ele passe por um sofrimento arrasador.
          Mesmo com uma história de vida marcada pela influência religiosa e dando mostras de que é adepto a uma religião, a análise de Olson não parte dos aspectos doutrinários de alguma igreja. Trata-se de uma visão mais holística do fenômeno da fé e não limitada por dogmas.
          Embora o autor enalteça a engenhosidade do romance de Young, ele também faz algumas críticas e discorda de alguns pontos-de-vista. Uma dessas é o fato de Young ressaltar uma fé muito individualista e nada abordar sobre a dimensão comunitária da mesma. Isto é visto por Olson, como uma falha do autor já que a ideia de que Deus é um ser de relacionamento e de comunhão, está explícita nas linhas do romance e nos diálogos de Mack com a Santíssima Trindade.
          Críticas à parte, Olson que mostrar a importância de se cultivar uma visão de Deus, não a partir de nossos sofrimentos e dores, mas a partir de seu imenso amor e sua capacidade de transformar nossas vidas. É esse o grande milagre da existência, de ter uma vida restaurada pelo perdão e pelo amor.
 
REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:      Deus e a Cabana
Subtítulo: entendendo a presença divina no best-seller de William P. Young
Autoria:    Roger E. Olson
Editora:    Thomas Nelson Brasil
Ano:         2009
Local:       Rio de Janeiro
Gênero:    Espiritualidade | Religião

Confira o trailer da adaptação do filme "A Cabana" para o cinema lançada em 2017:


segunda-feira, 1 de maio de 2017

O Mundo Mágico de Harry Potter (David Colbert)

            A fama dos livros de Joanne K. Rowling e sua disseminação entre os fãs do bruxo mais famoso da literatura contemporânea encerram segredos em suas entrelinhas. Afinal, em que a autora teria se baseado para criar todo o universo mágico do mundo de Harry Potter? Embora esse livro não tenha contado com a aprovação de Rowling e da Warner Brothers, David Colbert faz uma leitura muito interessante dos diversos elementos presentes na série e suas remissões a mitos, lendas e contos.
            O imaginário de um autor nunca é totalmente original ao criar uma história de sucesso, especialmente aquela que consagrou Joanne K. Rowling como uma das mais influentes autoras do público juvenil. O que o autor desse livro propõe é dar pistas e fazer comparações entre as criaturas mágicas, nomes, personagens e enredo a partir dos quais o mundo de Harry Potter surge com aquelas já consagradas pela história e mitologia das várias civilizações do ocidente e oriente.
            Inicialmente a saga se constrói sob um tema muito abordado na literatura e história de todos os tempos: a bruxaria. A esse tema se aliam outros semelhantes como a alquimia e a invocação das forças sobrenaturais e os poderes obtidos por meio da manipulação de elementos da natureza. Para criar seus personagens com originalidade, Rowling teria se baseado em outros bruxos e feiticeiros como aqueles provenientes de autores famosos como Shakespeare, Flaubert, Dickens, Ovídio e Tolkien. O mesmo acontece com seus personagens. Afinal, não seria mera coincidência que o famoso diretor de Hogwarts, Alvo Dumbledore, fosse descrito com uma fisionomia e modos muito parecidos aos de personagens famosos como Merlin (Rei Arthur) e Gandalf (O Senhor dos Aneis).
            Em relação às criaturas mágicas, algumas apresentam traços muito peculiares de seu próprio imaginário, mas todas surgem a partir de outras figuras mitológicas. É o que acontece com o unicórnio, os duendes, os hipogrifos, os dragões, os centauros e os grifos, todos eles presentes em diversos contos consagrados da literatura inglesa.
            Os nomes também conservam características peculiares da autora. O nome de Draco Malfoy, por exemplo, faz referência à dragão, uma criatura mítica a que todos os viventes temiam. O mesmo acontece com o feitiço Avada Kedavra o qual nada mais é do que uma construção desenvolvida a partir da consagrada invocação abracadabra.
            Uma ideia bastante original é o jogo de quadribol em suas regras. Contudo, a utilização das vassouras voadoras não é nenhuma novidade, uma vez que as bruxas dos contos infantis já eram conhecidas por sua capacidade de enfeitiçar objetos domésticos que lhe seriam úteis. Uma boa representação é o próprio cotidiano da mãe de Rony, quando usa a magia a todo o momento na execução de tarefas próprias do ambiente de casa.
            A partir das pinceladas acima é possível concluir que o universo mágico de Harry Potter recria elementos e figuras dos contos relatados desde muitas décadas. O que o autor desse livro objetiva é fazer um elogio à criatividade de Joanne Rowling em mesclar tantos contos famosos em uma história fascinante que encanta multidões leitores juvenis e adultos. Desse modo, mergulhar em um dos livros da saga Harry Potter torna-se muito mais do que mera distração literária e sim uma viagem através de lendas, contos e mitos parodiados em uma história envolvente e misteriosa.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:      Mundo Mágico de Harry Potter, O
Subtítulo: mitos, lendas e histórias fascinantes
Autoria:    David Colbert
Editora:    Sextante
Ano:         2001
Local:       Rio de Janeiro
Gênero:    Curiosidades | Livros

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Spartacus: o gladiador (Ben Kane)

            Consagrado como o gladiador mais famoso de todos os tempos, Spartacus teve sua história imortalizada e, frequentemente, recontada nas mais diversas artes: cinema, literatura, poesia, música, teatro, etc..           Seus feitos contam a história da resistência da minoria oprimida frente ao poder político opressor.
            Spartacus era originário da Trácia e servira por dez anos no exército romano, onde adquiriu grande experiência em batalha. Após sua deserção, retornou a sua terra natal e, ao tentar defender a sacerdotisa Ariadne dos ataques ciumentos do Rei Kotys, ambos foram feitos prisioneiros. Spartacus havia se tornado um escravo e fora vendido para um lanista (treinador de gladiadores) no território de Cápua. Para que Ariadne não ficasse sujeita a um novo ataque de Kotys, ambos forjaram a história de que eram casados, de forma que pudessem seguir viagem juntos, ainda que escravos.
            O ludo (escola de gladiadores) no qual Spartacus servia estava sob a tutela de Phortis. A covardia, brutalidade e barbaridade eram as maiores companheiras dos gladiadores que conviviam com a certeza de que poderiam ser fatalmente feridos a qualquer momento. A única forma de conseguir a liberdade era após anos de vitórias e lutas sangrentas, o que significava ser praticamente impossível escapar ileso. Enquanto isso, os proprietários se enriqueciam organizando munus, combates entre gladiadores promovidos pelos políticos, a fim de desviar a atenção do povo de suas reais necessidades e aumentar a popularidade dos governantes. Em um desses, patrocinado pelo senador Crassus, Spartacus fora escalado para uma batalha que poderia por fim a todos os seus sonhos de vingança. Contudo, o trácio consegue provar seu valor em uma vitória heroica e impressionante.
            Mesmo sabendo dos riscos aos quais estaria expondo a si e a seus companheiros, Spartacus resolve organizar uma fuga do ludo. Para isso deveria contar com o apoio da maioria dos líderes das diversas nacionalidades que ali conviviam, uma vez que seria uma fuga em massa. Dentre esses, os mais irredutíveis seriam os gauleses, principalmente Oenomaus, Castus, Gannicus e Crixus. Spartacus contaria com o importante apoio de Carbo, um jovem romano cujos vislumbramento como as batalhas o fizera se tornar um auctorato (cidadão romano livre que se oferece para tornar-se um gladiador). O plano estava combinado mas um traidor revelara-o aos donos do ludo. Nesse episódio, uma carnificina acontece, porém os escravos conseguem a sonhada liberdade e Spartacus consegue fugir com mais de setenta deles.
            A liberdade alcançada pelos escravos não significava tranquilidade. O senado romano enviaria diversas tropas para calar aquela rebelião e Spartacus precisaria manter o grupo unido e coeso, além de treiná-los bem para a resistência. Com isso, o livro se desenvolve em várias outras batalhas que demonstram o combate entre oprimidos e opressores. As divindades são frequentemente invocadas por Spartacus (o Grande Cavaleiro) e Ariadne (Dionísio) trazendo o aspecto religioso e imanente daquela jornada. O autor também aborda os conflitos internos que aconteciam entre os escravos, sendo que o episódio envolvendo Crixus e a amante de Carbo – Chloris – é um dos mais revoltantes.
            Nesse contexto de honra e glória Spartacus prova o porquê tornou seu nome imortalizado na história. O livro é muito bem construído e desenvolvido, deixando muito clara a evolução preocupante que aquele motim provocara nos poderes políticos. Uma verdadeira odisseia de um guerreiro que não renunciou à sua liberdade e desafiou perigosamente o poder de Roma.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:      Spartacus
Subtítulo: o gladiador
Autoria:    Ben Kane
Editora:    Agir
Ano:         2014
Local:       Rio de Janeiro
Série:       Spartacus - Vol. I
Gênero:    Drama | Épico

Confira o trailer da série produzida pela Starz:

terça-feira, 11 de abril de 2017

Meu Deus em quem confio (Jacques Loew)

meu deus em quem confio          Jacques Loew nasceu em Clermont-Ferrand (França) em 1908, filho de católicos não-praticantes. Trabalhou como estivador e foi advogado. Tendo se convertido aos 24 anos, mais tarde ingressou para a ordem dos dominicanos. Fundou a Missão Operária São Pedro e São Paulo (MOP) e a Escola da Fé.
          No cristianismo, a conversão é um fator chave para que a pessoa se reconheça em seu ser limitado e busque sua totalidade em Deus. Ela não é um processo isolado, de um único momento da vida do cristão, mas atravessa toda a sua existência, convidando-o sempre a aperfeiçoar-se em sua vivência da fé. É nesse sentido que a obra de Jacques Loew conserva o júbilo dos cinqüenta anos de seu encontro com Deus ou, em suas próprias palavras, de felicidade interior.
          Tudo começou a partir de sua estadia no sanatório em Leysin, e 1932, onde teve seus primeiros contatos com obras como A Imitação de Cristo, Confissões e o Novo Testamento. Filho de pais católicos, foi batizado e instruído nos ditames do protestantismo. Em uma Semana Santa na Cartuxa de Valsainte, sente-se profundamente tocado pela celebração dos mistérios de Cristo, especialmente pela Ceia do Senhor. A leitura de Pensamentos (Blaise Pascal) o faz refletir sobre a condição do homem no mistério de Deus. Era como se sentisse provocado a dar uma resposta que mudaria toda a sua vida: “Queres que seja sempre à custa do sangue de minha humanidade, sem que tu me dês tuas lágrimas? Cabe a mim tua conversão, não temas e reza com confiança” (p. 26). A partir daí decorreria todo um processo que culminaria em sua entrada para os dominicanos.
          A narrativa do padre Loew concilia dois pólos como parte de uma única e mesma realidade: a ciência e a fé. Os estudos e pesquisas da primeira facilitam a compreensão da segunda. Daí provém seu deslumbramento diante de um floco de neve, do ciclo reprodutivo da papoula ou do papel das abelhas na polinização. A fonte da tradição bíblica também é para ele uma história do caminho espiritual da ação de Deus na vida de homens que se abriram ao mistério. Consequentemente, isto o faz acolher e meditar nos grandes dogmas da doutrina católica como a confissão (todah), Eucaristia, Santíssima Trindade, Virgem Maria e ressurreição. São traços que o ajudam a, pouco a pouco, ir compreendendo o mistério do homem na vida de Deus e vice-versa.
          Por esta obra, padre Loew quer fazer um memorial de todo o itinerário de conversão que vivenciou. Reunindo aspectos autobiográficos e observando a própria história como espaço privilegiado de morada do divino, toda a alegria e júbilo de sua trajetória o fazem regozijar-se. A gratidão é o motivo pelo qual o autor realiza uma verdadeira profissão de fé na ternura e bondade manifestada por Deus, no decorrer de toda a sua vida. Com isso, transmite ao leitor e lhe desperta, para a sabedoria em reconhecer a presença divina na criação, no progresso humano e em sua própria jornada como peregrino neste mundo.
 
REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:   Meu Deus em quem Confio
Autoria: Jacques Loew
Editora: Paulinas
Ano:      1986
Local:    São Paulo
Gênero: Espiritualidade

sábado, 1 de abril de 2017

O Senhor das Moscas (William Golding)

            Originalmente publicado em 1954, somente anos mais tarde essa obra alcançou grande popularidade, devido à repercussão de sua história. Garantiu ao autor a obtenção do Prêmio Nobel em 1983 e teve duas adaptações para o cinema, em 1963 e 1990, respectivamente. É considerada um clássico da literatura pós-Segunda Guerra Mundial e fez com que algumas bandas famosas a homenageassem em suas músicas.
            Os traços de realidade da história são usados como alegorias no sentido de melhor transmitir a mensagem da obra: como o ser humano regride a seus instintos primitivos em situações limite. Embora não seja narrado o fato, tudo começa com um acidente aéreo em que os únicos sobreviventes são garotos de uma escola que estavam sendo levados para longe das zonas de guerra. Longe de serem crianças indefesas e ingênuas, a necessidade de sobrevivência clama para que se organizem e consigam triunfar daquele episódio catastrófico. Nesse grupo, alguns personagens se destacam e suas características possuem traços bastante peculiares: Ralph, o líder do grupo, traduz o espírito de democracia; Porquinho, frequentemente debochado pelos colegas em virtude de seu corpo obeso, na verdade é o mais inteligente; Jack, dotado de um espírito orgulhoso, possui um caráter extremamente frio para atividades insanas como a caça aos porcos.
            Talvez a maior alegoria seja a organização em sociedade a que o grupo é submetido. Algumas regras foram combinadas como a necessidade de ter em mãos uma concha para que alguém pudesse ter a palavra, bem como o cuidado em manter uma fogueira sempre acesa, já que algum navio poderia ver a fumaça e resgatar os meninos. Contudo, a existência de regras logo mostraria que isso não é sinônimo de organização, principalmente quando elas são confrontadas com os mais primitivos instintos humanos. Um exemplo é o episódio em que, ao partirem para a caçada de um porco que permitiria aos garotos se alimentarem de carne, os mesmos descuidam da fogueira e a deixam apagar, justamente quando no horizonte se vislumbrava uma embarcação. Era o estopim para que a divergência nos modos de pensamento fomentasse a divisão e o confronto entre eles.
            O tema do medo é abordado no livro a partir da suposta existência de um “Bicho” que poderia aniquilar os meninos. Quanto a isso, enquanto alguns se fecham e receiam outros se encorajam na busca por descobrir a criatura e destruí-la. Uma visão que Simon teve a partir de uma cabeça de porco revela o lado místico de toda essa alegoria. Afinal, aquela superstição era ou não verídica? A simbologia desse termo mostrará que o “Bicho” na verdade era a natureza humana e sua capacidade de fazer o mal quando se sente acuada.
            O ambiente paradisíaco da ilha talvez tenha sido escolhido pelo autor para distanciar ao máximo da sociedade como a concebemos. Trata-se de um retorno à vida primitiva e uma metáfora da regressão humana ao seu estado mais essencial. Confrontados com a distância das comodidades modernas e a necessidade de sobrevivência, os garotos são movidos a comportamentos cruéis, alguns devido a discordâncias pessoais, outros devido à disputa pela supremacia. Isso leva o leitor a um questionamento: por se tratarem de crianças, podemos supor que a tendência para o mal é algo inato ao ser humano ou algo aprendido, em virtude das circunstâncias da vida? Enfim, é possível concluir que o tema do mal é muito presente, justificando até mesmo o título do livro que é uma tradução mais romanceada para o termo hebraico Belzebu (Ba’al Zebub).

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:   Senhor das Moscas, O
Autoria: William Golding
Editora: O Globo | Folha de São Paulo
Ano:      2003
Local:    Rio de Janeiro | São Paulo
Gênero: Drama | Alegoria

Confira a adaptação para o cinema lançada em 1990:

quarta-feira, 22 de março de 2017

Cidades de Papel (John Green)

            Do mesmo autor do famoso best-seller A Culpa é das Estrelas, esse livro também foi adaptado para o cinema, lançado em 2015, embora com um sucesso menor do que aquele. John Green mais uma vez usa com maestria sua habilidade em inserir reflexões existenciais sutis nas vivências comuns de pessoas pós-modernas.
            Margo Roth Spielgeman e Quentin Jacobsen são dois adolescentes que, desde a infância eram vizinhos na cidade de Orlando (Colorado, EUA). Grandes amigos, durante uma de suas brincadeiras encontraram o corpo de um homem às margens de um lago. Aquele fato inusitado que poderia ser um episódio isolado, na verdade suscitaria nos dois muitos questionamentos existenciais, principalmente em relação à história do falecido. Mas o tempo passou e, como jovens comuns, seguiam sua rotina de festas e estudos como qualquer outro jovem norte-americano.
            Apesar de se comportarem apenas como amigos, Quentin nutria certo romance por Margo. Enquanto ele era um jovem que sonhava em terminar os estudos do colegial e logo ingressar na faculdade, ter uma carreira de sucesso, uma família e uma vida confortável, ela vivia uma vida de aventuras, seduzida por diversos mistérios e sempre disposta a vivenciar experiências que renderiam uma boa história. Foi assim que, certa noite, Margo surgiu na janela de Quentin intimando-o a acompanhá-la em uma noite incrível de feitos inusitados. Mesmo surpreso, Quentin aceita. Juntos, realizam façanhas incríveis desde trolar a amante do ex-namorado de Margo, que a estava traindo até um passeio noturno pelo Sea World em Orlando. Ao término daquelas realizações, Quentin e Margo estariam em um dos andares de um prédio a observar a cidade. Para Margo, tudo aquela imensidão de construção não passava de uma “cidade de papel”, uma metáfora para simbolizar a fugacidade daquilo que parecia tão imponente, onde as pessoas viviam seu cotidiano rotineiro e tentavam encontrar sentido nessa monotonia.
            Estava próxima a festa de formatura dos alunos. Quentin e seus amigos – Radar, Ben e Lacey – estavam ansiosos pelo tradicional baile, cada um procurando adiantar seus pares. No entanto, o par que Quentin queria, depois daquela noite de façanhas não compareceu mais à escola. Margo estava desaparecida, mas Quentin tinha a firme convicção de que ela havia deixado pistas, como sempre fizera nas outras vezes. Foi assim que ele descobriu um exemplar do poema “Canção de mim mesmo” de Walt Whitman, onde algumas passagens enigmáticas foram grifadas com uma caneta marca-texto. Aquilo parecia ser sinais de Margo, que somente Quentin poderia decifrar. Era o início de uma procura, que o levaria, inicialmente a casarões abandonados na própria cidade e, depois, à extinta cidade de Agloe, uma cidade de papel que findaria o grande enigma de Margo Roth Spielgeman.
            O termo “cidades de papel” além do sentido conotativo enunciado por Margo durante a noite em que saíra com Quentin possui também um sentido denotativo. Trata-se das cidades que constam somente nos mapas, mas que não existem realmente. É uma ideia daquilo que é aparente, porém não é real. Isso dá uma noção da filosofia que o autor constrói em sua obra. Embora o estilo narrativo foque bastante nas vivências do dia a dia de jovens comuns, a procura existencial que Quentin empreende é algo que o torna um jovem diferenciado. Nada parece ser um limite para que ele descubra o paradeiro de Margo, ainda que seja viajar por longas horas rumo a um local incerto. Por outro lado, para Margo, ele persegue a ideia que criou a respeito dela, uma vez que, na verdade, ele nada sabe da verdadeira e problemática Margo. Vale ressaltar que tal busca não é movida por um desejo passional louco e sim pela vontade de desvendar aquele que é o maior enigma de toda a história: a própria Margo Roth Spielgeman.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:    Cidades de Papel
Autoria:  John Green
Editora:  Intrínseca
Ano:       2013
Local:     Rio de Janeiro
Gênero:  Drama | Aventura | Romance

Confira o trailer da adaptação para o cinema lançada em 2015:

domingo, 12 de março de 2017

O Deus Oprimido: em busca de uma espiritualidade da inserção (Benjamin González Buelta)

deus oprimido, o          Nos tempos atuais, em que o avanço do capitalismo, o declínio dos valores tradicionais, o crescente consumismo e espírito de competitividade crescem sempre mais, uma pergunta se coloca aos cristãos, especialmente aos vocacionados à vida religiosa: como se inserir em tal contexto, vivendo a partir de uma adesão radical ao reino pregado por Jesus Cristo? A crescente massa de oprimidos, sem voz e nem vez, vem como o grito de um Deus que está sendo marginalizado, excluído, colocado à parte, mostrando-se na pessoa do outro: um Deus Oprimido. A partir dessa realidade questionadora, o padre Buelta busca, à luz de seus 18 anos de experiência, convivendo com os miseráveis de Guachupita na República Dominicana, tecer uma análise de conjuntura da pastoral da Igreja, buscando os sinais da coerência de seu discurso com sua prática na opção preferencial pelos pobres.
          A pastoral entre os pobres parte do reconhecimento de que é o próprio Deus presente no mundo, que caminha com o povo na história, não como espectador, e sim como vítima dos mecanismos de morte. A partir daí, uma provocação aos religiosos: “Podemos nós entender o Evangelho, lendo-o desde nossa posição privilegiada no sistema, a partir do poder, da segurança, da instituição...?” (p. 19). A alternativa da inserção surge como um êxodo em direção aos oprimidos, na busca por encontrar o próprio Deus, que se encarnou entre os pobres, viveu como pobre e morreu pobre. Por isto, quer significar uma aceitação dos desafios contra a realidade de injustiça, dos dominadores e das ideologias. Inserir é também comungar da sabedoria, cultura e fé do povo, na busca de opções concretas que realizem o seu projeto na história. Trata-se de cultivar uma espiritualidade celebrativa, atenta às necessidades concretas, que produziriam a libertação da opressão. É ser sinal de contradição, frente ao curso da humanidade. Enfim, é um transcender de uma experiência meramente individual e narcísica de Deus, para uma experiência coletiva e libertadora, contemplando a Deus, na caminhada com seu povo. A realização concreta desse projeto leva à percepção de um reino de Deus que já está presente no mundo, pelas sementes de esperança que surgem, mas ainda não completamente, em virtude das injustiças e desigualdades entre as pessoas.
          Contemplar a Deus na história é se comprometer com a vida. Nem uma práxis que se rotiniza no ativismo exacerbado, nem uma espiritualidade que se fecha sobre si mesma, sem inquietar-se diante de quem mais sofre. A inserção é a opção por viver como o povo, na busca de implodir em seu meio a mensagem de amor e fraternidade de Jesus, na luta pela justiça.
          Destinado aos que fazem do compromisso com o oprimido o escopo da vivência radical e engajada da boa-nova do Evangelho, esta obra vem reacender essa opção fundamental. A urgência de uma pastoral coerente e eficaz é a demanda da Igreja, frente à realidade que se descortina sempre mais desafiadora. A vida religiosa é chamada a se desinstalar de seus confortos e se inserir entre os que são o alvo de seu discurso, rosto humano e oprimido de um Deus que caminha com seu povo, em Jesus Cristo.
 
REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:      Deus Oprimido, O
Subtítulo: em busca de uma espiritualidade da inserção
Autoria:    Benjamin Gonzáles Buelta
Editora:    CRB
Ano:         1989
Local:       Rio de Janeiro
Gênero:    Espiritualidade | Religião

quinta-feira, 2 de março de 2017

O Escaravelho do Diabo (Lúcia Machado de Almeida)

            Famoso durante os anos 80/90 pela já aclamada coleção de que faz parte, o título de Lúcia Machado de Almeida ganhou uma adaptação cinematográfica em 2016.
            Alberto era um estudante de medicina que, certo dia fora surpreendido pela visão do irmão Hugo assassinado dentro de sua própria casa, com uma espada cravada no coração. Mais curioso ainda era que, poucos dias antes, Hugo recebera um embrulho pelos correios que continha um besouro fincado em uma rolha de cortiça. Intrigado com aqueles acontecimentos, Alberto fizera uma pesquisa sobre o estranho animal e constatou que seu nome científico remetia claramente ao objeto que ceifara a vida do irmão. Mesmo desconhecendo qualquer atrito de Hugo com quem fosse, o caso fora levado à polícia para investigação do dedicado inspetor Pimentel.
            Poucos dias depois uma nova morte assustara os moradores da pequena cidade onde Alberto vivia. O filho mais novo da dona de uma pensão, a irlandesa Clara O’Shea, morrera envenenado ao tomar um comprimido para um resfriado. Curiosamente o garoto também recebera um escaravelho de presente dias antes. O embrulho macabro que o assassino enviava às suas vítimas já era o suficiente para que Pimentel e Alberto traçassem um modus operandi daquele serial killer em potencial.
            Com o passar do tempo um novo fato acionara o alerta daqueles que achavam tudo se tratar de mera coincidência: a artista Maria Fernanda fora tragicamente assassinada durante um concerto. Nas três mortes, além do recebimento do inseto outra característica comum intrigava os investigadores: todas as vítimas eram ruivas. Com isso a polícia resolvera escoltar os ruivos que ocupavam posição de destaque na cidade – como o Padre Afonso – até porque novos casos de assassinato vinham acontecendo frequentemente. Inclusive, Rachel Saturnino, uma amiga íntima de Alberto, havia sido atacada em um local público e só não sofrera destino igual ao dos outros porque o estudante surgira repentinamente para salvá-la.
            A ação do “inseto” já levava a polícia a levantar suspeitas. Dentre as principais estavam os trabalhadores e moradores da pensão de Clara O’Shea, onde seu filho Clarence fora envenenado. Especialmente o cozinheiro e a camareira, além de Verônica, uma moradora por quem Alberto nutria certo romance. Verônica era suspeita uma vez que os policiais haviam encontrado um embrulho cheio de besouros debaixo de sua cama. Além do mais, quando novas mortes ocorriam algum dos suspeitos sempre estavam presente ou próximos às cenas dos crimes. Porém, tamanha desconfiança levara Verônica a se afastar definitivamente de Alberto, já que o rapaz era o braço direito do inspetor nas investigações. E assim o caso se arrastou por anos a fio, até que o assassino fez sua última vítima (e por sinal, o último ruivo da cidade) sendo esta o próprio Padre Afonso.
            Quando o caso já havia sido arquivado por falta de elementos que identificassem o autor dos crimes, após se formar e atuar no ramo da medicina, Alberto tivera um encontro revelador. Tudo ocorrera durante um congresso em que um conceituado cardiologista revelara uma história intrigante que definitivamente colocava um fim a toda aquela onda de mistério que pairava sobre os habitantes da cidade natal de Alberto por tantos anos... A revelação final mostraria os perigos de uma mente psicótica no seio da sociedade.
            A autora de O Escaravelho do Diabo consegue construir uma trama de mistério digna das grandes produções do gênero, como aquelas de grandes nomes como Arthur Conan Doyle ou Clarice Lispector. Mesmo com capítulos curtos e uma leitura fluida a história não se perde em narrativas apressadas, sem riqueza de detalhes e com fatos previsíveis. Ao final, o que se tem é uma história rica em suspense, sem heroísmos floreados, mas com um desfecho digno dos grandes casos policiais.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:   Escaravelho do Diabo, O
Autoria: Lúcia Machado de Almeida
Editora: Ática
Ano:      1982
Local:    São Paulo
Série:    Coleção Vaga-lume
Gênero: Suspense | Policial | Drama

Confira o trailer da adaptação para o cinema lançada em 2016: