terça-feira, 20 de junho de 2017

O Crepúsculo do Mundo (Allan Massie)

Allan Massie é um autor especialista em romances históricos. Neste, conta a história de Marcos, de quem se dizia ser filho de São Miguel Arcanjo, durante o período das invasões bárbaras ao Império Romano. O título se justifica pois o autor enfatiza uma época crepuscular em que o mundo vinha adormecendo de uma cultura marcadamente impregnada pelos mitos e uma visão religiosa da sociedade, para uma cultura onde o cristianismo começava a ser alvo de questionamentos e os barbarismos ameaçavam o poder político. Concomitantemente, tal período marca também o início de acontecimentos que levariam ao declínio do Império Romano.
Marcos é um jovem que, durante suas aventuras, perpassa pelos povos gregos e italianos, como quem descobre um outro lado do mundo na Idade Média. Durante suas expedições, os personagens que encontra o fazem explorar seus principais conceitos sobre a religião, especialmente sobre o cristianismo, credo que ele mesmo professava. Num mundo cujo cristianismo ainda é profundamente marcado pela visão mítica e por lendas, Marcos conhece também o lado lascivo que muitos de seus adeptos praticavam, sem remorso ou temor pela concepção de pecado, mas sim entregues aos prazeres e paixões, muitas vezes justificadas por conceitos filosóficos.
O início da jornada de Marcos começa quando o Imperador Honório o envia, acompanhado do Padre Bernardo, do cavalariço grego Quíron e do pajem Gito para que fosse o mensageiro responsável por levar sua mensagem de trégua junto aos visigodos, liderados pelo irredutível Alarico. No entanto, a irmã do rei, princesa Honória, tinha outros intuitos discordantes do imperador, já que ela buscava também perverter o sagaz João, o Entendido, conselheiro de Alarico, por quem nutria grande aversão. A proposta soaria ineficaz e os visigodos partiriam rumo a Roma para um saque que entraria definitivamente para a história romana como um dos eventos mais desastrosos de sua existência.
Em suas aventuras, por conveniência, Marcos se casa com uma grega de nome Artemísia, filha de Melanipos, um rico proprietário de cavalos e vinhedos, ainda que seu coração fosse mais afeto a Pulquérrima. Ao passar por Constantinopla, a imperatriz Eudóxia o envia para uma nova missão, sob a recomendação de que Artemísia ficasse a seu serviço até que Marcos retornasse da perigosa saga. Contudo, traiçoeira que era, a imperatriz manda cegar Artemísia e deixá-la vagar como mendiga pelo império de Constantino, relatando uma história trágica para Marcos, quando esse regressa à pedido da própria imperatriz. Nesse episódio vemos uma trama envolvendo o famoso João Crisóstomo, arcebispo que tecia duras críticas ao comportamento da imperatriz.
A história é entremeada pelos deuses e heróis gregos e romanos, revelando os reflexos que uma era de mitos ainda respingavam em uma cultura cujo cristianismo era a religião dominante. Há um debate em torno do que seria o Santo Graal, talvez até mesmo antecipando a lenda do próximo volume da Trilogia Eterna Roma, Rei Artur. Como romance histórico, a preocupação do autor em manter o caráter narrativo oculta um pouco caráter informativo que alguns leitores talvez possam esperar. Contudo, ao viajar por um dos mais emblemáticos períodos da civilização humana, a história não perde seu valor, ainda que sua trama possua traços essencialmente fictícios. Enfim, inaugurando a trilogia Eterna Roma a obra tem o mérito de louvar a perenidade do Império Romano, mesmo em tempos de duras crises.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:      Crepúsculo do Mundo, O
Subtítulo: um romance da Idade das Trevas
Autoria:    Allan Massie
Editora:    Ediouro
Ano:         2002
Local:       Rio de Janeiro
Série:       Eterna Roma - Vol. I
Gênero:    Épico | História

sábado, 10 de junho de 2017

Os Últimos Dias de Krypton (Kevin James Anderson)

O mundo já conhece o personagem lendário dos quadrinhos que a DC Comics criou e imortalizou. Agora é o momento de conhecer, em forma de prosa, a gênese do Super-Homem, bem como fatos inéditos de seus antepassados. É essa a tarefa que Kevin Anderson se propõe nesta obra magnífica.
Krypton era um planeta governado por um conselho composto por onze membros e vivia dias de paz, graças às regras que regiam a sociedade. Jor-El era um cientista de renome, conhecido por suas diversas invenções, ainda que muitas delas tenham sido vetadas pelo membro da Comissão para Aceitação da Tecnologia, comissário Zod, por encontrar riscos à sociedade, caso aquelas invenções caíssem em mãos erradas. Assim foi com a Zona Fantasma, uma espécie de prisão no vácuo, cujo próprio Jor-El experimentara, sendo salvo graças à intervenção de sua amiga Lara.
Jor-El era irmão de Zor-El, líder e governador da cidade de Argo City. Enquanto um era dedicado à vida científica, o outro gastava sua vida para o bem-estar de seu povo. Mas o conhecimento tecnológico de ambos levara-os a uma terrível constatação: o sol de Krypton, Rao, estava entrando em supernova e o núcleo do planeta apresentava atividades sísmicas cada vez mais incomuns. Tudo isso indicava que o fim daquele planeta era iminente, demandando das autoridades uma rápida intervenção, no sentido de levar a população para outro planeta mais seguro. Contudo, o Conselho era cético em relação às ameaças informadas pelos irmãos, ainda mais porque a constatação deles era fruto de cálculos complexos, pouco havendo indícios factuais que o confirmassem.
Certo dia, Jor-El recebera a visita de Donodon, um alienígena que já observara diversos planetas cujos habitantes possuíam traços semelhantes aos dos moradores de Krypton. Entre eles, destacava-se o planeta Terra. No entanto, um acidente provocado por uma das invenções de Jor-El, causara a morte de Donodon, fazendo com que o comissário Zod o acusasse perante o Conselho. O julgamento de Jor-El estava marcado e dificilmente se livraria das acusações. Seu consolo era somente sua nova esposa, Lara, com quem se casara recentemente. Porém, durante a lua de mel, uma artimanha tramada por Zod fizera com que a capital de Krypton, Kandor, fosse dizimada do mapa, exterminando também todos os membros do conselho. Consequentemente, Zod montara seu próprio conselho e se autodeclarara General Zod, governando juntamente com sua esposa Aethyr. Enquanto isso, a ameaça de Rao era uma constante e a situação do planeta tornava-se ainda mais vulnerável, principalmente pela descoberta de um novo perigo: um cometa batizado como “Martelo de Ur” que estava em rota de colisão com Krypton. Porém, o General Zod era um líder tirano e vaidoso e pouco se importaria com essas ameaças, já que seu maior objetivo era consolidar seu poderio e submeter todos os kryptonianos a seu domínio. Kryptonopolis era a nova capital e nova ordem instaurada só podia ser combatida por Zor-El e os líderes aliados das outras cidades. Enquanto isso, Jor-El tentaria desesperadamente encontrar uma salvação a nível planetário, movido principalmente pela paixão por Lara e pelo sonho de que seu filho, Kal-El, ainda no ventre materno, pudesse vir a habitar em um lugar melhor.
Os Últimos Dias de Krypton é um livro cujos fatos se comunicam e intercalam perfeitamente, criando um enredo estimulante para o leitor. Com capítulos curtos e bem delineados, aos poucos o autor vai narrando o jogo de poder que, ao invés da salvação, culminara na destruição do lar kryptoniano. A questão política é muito presente, mas a trama cede espaço também para as relações afetivas, especialmente o romance entre Lara e Jor-El, que é contado desde os primeiros encontros entre os dois. Uma leitura para além do enredo aventureiro ensinará também a importância do cultivo da memória dos antepassados. Os fãs mais conhecedores da história do Superman, especialmente aquela contada nos quadrinhos, poderão dizer com mais propriedade se essa obra é uma celebração louvável da origem do personagem ou uma distorção deprimente da real história de Krypton. Opiniões à parte, a obra não deixa de ser a narração de uma aventura extremamente agradável de ler.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:   Últimos Dias de Krypton, Os
Autoria: Kevin James Anderson
Editora: Casa da Palavra
Ano:      2013
Local:    Rio de Janeiro
Gênero: Aventura | Drama

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Duas narrativas fantásticas: A Dócil e O Sonho de um Homem Ridículo (Fiódor Dostoiévski)

Definidas pelo próprio autor como “narrativas fantásticas” esse livro traz dois pequenos contos, os quais repercutem o talento do consagrado autor russo. Histórias que transcendem a narrativa dos fatos e contribuem filosoficamente para refletir sobre as questões que permeiam a existência humana e temas recorrentes na obra dostoievskiana: perdão, culpa, significado da vida, transcendência, etc..
Ambos os contos possuem um traço em comum que é o caráter autoreflexivo diante de um fato inicial, ao estilo de monólogos. No primeiro, A Dócil (1876), um ex-oficial que havia sido humilhado por recusar-se a cumprir uma ordem e que agora era dono de uma casa de penhores, de repente se apaixona por uma jovem recém-saída da adolescência, pobre e órfã. Nessa narrativa breve, ele apresenta suas impressões sobre a vida a dois, buscando desvendar os segredos que a parceira trazia em seu íntimo e, para além de tais reflexões, buscando compreender os motivos que a levaram ao suicídio, quando tudo parecia ir muito bem. Ele havia evitado que a garota se casasse com um homem rude e também contribuíra para que ela saísse da casa das tias. No entanto, era ele quem ditava às regras dentro de casa, fazendo com que ela se tornasse uma esposa submissa e servil, enunciando os ares introspectivos em que vivia. Tudo isso é refletido quando ele se encontra diante do corpo da amada, arrependido por seus cinco minutos de atraso, o que, em sua opinião, poderia ter evitado aquele desfecho trágico.
No segundo, O Sonho de um Homem Ridículo (1877), um homem decidido a por fim na própria vida, está sentado em sua poltrona, diante de um revólver carregado. Contemplando a arma, adormece e viaja por um sonho utópico que, em síntese, traduz a dor e a beleza da própria vida. Ainda que seja um sonho, reveste-se do mais puro realismo, e leva-o à compreensão de que é ele mesmo quem perverte as situações, fazendo com que elas pareçam não ter qualquer valor ou que sejam piores do que realmente são. Tudo isso é vivenciado a partir do encontro com uma menininha, que o leva a enxergar que ainda há muito o que viver. No mais belo estilo dostoievskiano, a reflexão conduzirá o homem a ver a beleza oculta nas tragédias da vida, fazendo com que ela seja algo válido: “’A consciência da vida é superior à vida, o conhecimento das leis da felicidade – é superior à felicidade’ – é contra isso que é preciso lutar!” (p. 123).
As duas pequenas narrativas condensadas nesse livro permitem uma breve noção do pensamento filosófico de Dostoievski em seu caráter existencialista. Autor de livros grandes e densos, nesses dois contos é possível compreender como o homem está no centro de sua própria metafísica, sendo que as inconsistências da vida é o que o levam a refletir sobre como ele se posiciona frente aos acontecimentos. Interessante na obra do pensador russo é o fato de que, diferentemente de muitos pensadores existenciais que exageram no drama, dando a impressão de que a vida, ainda que bem vivida, é um constante pessimismo, Dostoievski, ao contrário, parte dos dramas para as superações, dando o tom de transcendência e realização humanas. Para ele, o homem que reflete seus infortúnios, ainda que seja triturado por eles, no final deve encontrar um caminho de síntese que o faça transcender para níveis existenciais mais elevados e reconfortantes. É o que acontece, principalmente na segunda narrativa desse livro. Ao leitor que se pôs a refletir um pouco com essas duas histórias, fica o convite para mergulhar ainda mais na obra de Dostoievski que, louvores à parte, é um dos melhores remédios para as grandes crises existenciais dos tempos modernos.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:      Duas Narrativas Fantásticas
Subtítulo: A Dócil e O Sonho de um Homem Ridículo
Autoria:    Fiódor Dostoiévski
Editora:    Editora 34
Ano:         2003
Local:       São Paulo
Gênero:    Drama | Filosofia

Confira o curta-metragem de "O Sonho de um Homem Ridículo" produzido em 1992:


domingo, 21 de maio de 2017

Tibério (Allan Massie)

            A história do imperador contada por Allan Massie nesse quarto volume da Série Senhores de Roma, é a história do homem cujas circunstâncias da vida levaram-no a tomar decisões contrárias a suas verdadeiras aspirações, no intuito de servir a um bem maior: seu dever para com o Estado.
            Tibério havia se casado com Vipsânia e era feliz. Contudo, após a morte de Agripa, general do Imperador Augusto, por conveniência política o imperador fez com que Tibério se divorciasse e contraísse uma nova união com sua filha viúva, Júlia. Augusto havia concedido a Tibério títulos e honrarias que o destacavam entre os senadores mas que, no fundo, alimentavam o despotismo do imperador. Após 20 anos de serviço à República, Tibério decidiu se exilar na Ilha de Rodes, onde dedicaria sua vida aos estudos, provocando grande contrariedade ao imperador. Uma traição cometida por sua esposa Júlia também impulsionara tal decisão.
            Nomeado como seu sucessor pelo Imperador Augusto, quando este falecera, Tibério assumiu o trono de Roma. Tentou convencer o Senado de que era necessário consolidar o império ao invés de expandi-lo, bem como acabar com o despotismo, descentralizando o poder. No entanto, a opinião dos senadores era contrária, obrigando-o a promover campanhas que expandissem os domínios de Roma, principalmente ao norte, nos territórios da Germânia e Panônia. Tibério e o Senado tiveram alguns atritos e o poder deste foi reduzido, embora ainda permanecesse como o principal detentor das nomeações de magistrados.
            Tibério destacou-se por sua carreira militar e por consolidar o poder romano principalmente em suas fronteiras. Foi durante seu governo que Jesus Cristo foi crucificado, muito embora este episódio não tivesse representado grande impacto em Roma. Em relação aos judeus, o imperador tomou medidas que fizeram com que toda a comunidade fosse exilada. Um de seus principais aliados, Lúcio Élio Sejano, havia sido executado logo após descobrir uma conspiração para destronar Tibério. Tal fato contribuiu ainda mais para a paranoia que o imperador já alimentava pelas conspirações. Tibério zelou pela conservação da Pax Romana alcançada a duras penas pelo seu antecessor. Decretou o fim das batalhas entre os gladiadores, consequentemente provocando o ódio entre a população. Faleceu em 37 d.C., suscitando o regozijo do povo romano.
            A história descreve Tibério como um homem tímido e taciturno, atormentando pelas contrariedades que sofrera. Jamais sonhara em tornar-se imperador, sendo escolhido por seu padrasto Augusto, mesmo que a contragosto. As diversas campanhas militares e as conspirações que sofrera desgastaram ainda mais sua personalidade. Como uma biografia supostamente escrita pelo próprio imperador, nessa obra temos um pouco de sua filosofia, o modo de administração da república, suas memórias e reflexões em um universo repleto de disparates e inimigos. Enfim, uma narrativa sobre a dura tarefa de governar, ainda que as intenções sirvam a chamados maiores do que as próprias pretensões.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:   Tibério
Autoria: Allan Massie
Editora: Ediouro
Ano:      2005
Local:    Rio de Janeiro
Série:    Senhores de Roma, Os - Livro IV
Gênero: Épico